Corrupção dos pobres
O País despertou com mais uma notícia sobre corrupção no futebol cá da terra. Esta, pelos vistos, facilmente comprovada, já que a PSP de Viseu apanhou os prevaricadores em flagrante delito. Em causa, apenas e só, provas regionais.
Fiquei satisfeito com a actuação das autoridades; apreciei a forma frontal como o responsável pela Associação de Futebol de Viseu comentou a questão e não pude deixar de me sentir admirado perante a cobertura exaustiva que as televisões dedicaram ao caso.
Mas, no meio do processo, dei comigo a pensar num pormenor: porquê toda esta célere (e profícua) acção em torno do sucedido em Tondela e Castro Daire enquanto, em situações mais graves, incomparavelmente mais mediáticas, pouco ou nada se esclarece pese meses ou anos de investigações, escutas, depoimentos, denúncias ou acusações?
A Justiça é como tudo o resto neste País de brandos costumes, funciona de forma distinta consoante o nome do(s) implicado(s). Apanhar, literalmente com a mão na massa, dirigentes e árbitros de um clube da Associação de Viseu parece ser fácil. A Polícia só teve de ir atrás de uma denúncia. Pior, muito pior, é ver gente famosa a ser confrontada com situações similares. Esses, ligados ao futebol ou a outras áreas com enorme exposição pública, têm direito a outro tratamento. Por mais rápida que seja a acção policial, os famosos sabem sempre quem (e quando ou como) lhes vai bater à porta. Têm tempo de se preparar, de receber aconselhamento jurídico, de esconder ou eliminar provas e até, caso seja necessário, de fugir.
É por isso que, desde sempre, desconfio que o "Apito Dourado" só poderá ser perigoso para a chamada arraia miúda ou que os miúdos da Casa Pia, depois de muitas voltas, serão culpabilizados por se terem envolvido com ingénuos adultos. Se até um tal de Padre Frederico conseguiu escapar e continua a apanhar sol no Brasil, era só o que faltava ir importunar gente importante cá do nosso bocadinho de terra...
