CR7 é um fenómeno sem igual
1 É um jogador sem limites, portentoso de pé direito, pé esquerdo e cabeça; temível de bola parada e corrida; ideal para o ataque organizado, rápido e contra-ataque; tremendo nas diagonais que o aproximam da baliza e preciso no jogo posicional. Apesar de tudo, Cristiano Ronaldo não é consensual. Nada que o preocupe. Em tempos também houve quem relativizasse o peso esmagador de Eusébio, com os argumentos de que monstruoso era Coluna; elegante e ponta-de-lança era José Águas; habilidoso era Simões; inteligente era José Augusto; classe tinha Germano. Porém, 50 anos depois, o Pantera Negra ocupa o seu trono, imperturbável, como rei do futebol. Sinal de que o tempo não costuma enganar-se nestas encruzilhadas e, no fim, acaba sempre por fazer justiça.
2 CR7 continua a acrescentar eficácia à fúria criativa e à paixão de quem entende o futebol como expressão de arte. A potência e habilidade do seu jogo deslumbrante está cada vez mais apetrechada com respostas às altas exigências da estatística; para quem assume a legítima aspiração de ser perfeito no físico, no talento e na influência, é impressionante a regularidade com que tem batido todo o tipo de recordes. Há nele a obstinação pela glória de Eddy Merckx, a arrogância de Muhammad Ali, a plasticidade de Michael Jordan e a perícia de Michael Schumacher. Sendo uma estrela do presente, ele é o futebolista do futuro: por estilo e funcionalidade; por mediatismo e decisão; por talento e versatilidade; por ser regular, instintivo e poderoso.
3 Poucos como CR7 concentram armas de génio futebolístico, protagonista de grandes encenações e impulsionador do negócio, porque nem todos estão habilitados a vender o futebol antes, durante e depois dos jogos. São raríssimos aqueles que expressam com regularidade argumentos de exceção e só meia dúzia desde sempre acederam à eternidade manuseando elementos divinos como se fossem ferramentas do dia-a-dia. CR7 tem sabido interpretar a matriz da sociedade moderna, na qual tudo é espetáculo. Não se estranha a reserva com que é olhado pelos falsos puristas, pelos preconceituosos e por todos quantos o diminuem só por ser rico, famoso e bem-parecido, indiferentes a quem enche estádios, faz explodir teorias e plateias, e ganha jogos com o fogo-de-artifício de um talento único.
4 Não existe fenómeno como CR7 na centenária, plural e multifacetada história do futebol. Nunca um jogador oriundo das faixas laterais adaptou tendências exibicionistas e demais extravagâncias a um dos maiores goleadores de sempre; nunca alguém saído de zonas periféricas ao espaço de decisão atingiu números tão obscenos numa época em que a tendência repressiva do jogo parecia inviabilizar o regresso a níveis de eficácia só expressos por bombardeiros de décadas passadas. Se continuar a jogar e a marcar à mesma cadência, acederá a patamares inatingíveis para qualquer outra estrela, passada ou atual. A conquista da segunda Bola de Ouro permitir-lhe-á dar um passo de gigante para tornar-se, nas contas finais da carreira, não necessariamente o melhor mas o mais titulado, o mais reconhecido e o mais completo de todos os jogadores portugueses.
Meio-campo que vale ouro
Se o Mundial fosse amanhã, os três médios leoninos deveriam estar na lista de Paulo Bento
No Sporting, a produção da equipa tem superado aquela que o senso comum nos indica como soma das partes – e essa discrepância favorável costuma ser dos primeiros méritos do treinador. Mas olhando para o que têm feito os médios leoninos, por exemplo, a intervenção de Leonardo Jardim adquire outra dimensão: William, André Martins e Adrien estão a jogar como nunca, são dos melhores da Liga e não se vislumbra, para já, até onde poderão chegar. Costuma dizer-se que a capacidade de um treinador também se vê na evolução dos seus jogadores. E este meio-campo já vale ouro.
Trivela decisiva de Sulejmani
Porque a concorrência é forte e a desconfiança exterior é grande, tarda em afirmar-se
Sulejmani é um jogador em plena adaptação a uma nova realidade, dificultada por motivos futebolísticos mas também por duas lesões que lhe travaram a imposição na Luz. Os grandes jogadores em situação complicada precisam, por norma, da confiança do líder para poderem retribuir com o talento que têm – e há alguns que só lá vão com muita paciência e mimo. O extremo, que sofreu no Ajax para jogar no Benfica, deu agora um primeiro ar da graça ao marcar golo de belo efeito ao Olhanense, com uma trivela a fazer lembrar Ricardo Quaresma. Pode ser que seja o início de qualquer coisa.
Carlos Eduardo foi deslumbrante
Há jogadores cujas qualidades e características demoram mais a expressar na plenitude
Carlos Eduardo não jogou apenas bem na segunda parte com o Sp. Braga e em todo o jogo com o Rio Ave: trouxe a resposta que o meio-campo do FC Porto procurava e ainda não encontrara para dar resposta cabal às ideias de Paulo Fonseca. O médio foi deslumbrante nas movimentações por todo o campo, no controlo da bola, da definição dos tempos de jogo e na qualidade como assumiu o papel de referência máxima da equipa. Carlos Eduardo confirmou assim que valeu a pena esperar por ele. Vai acrescentar sentido tático ao talento e, quando concluir o processo, será um caso muito sério.
