Criar é poder

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Criar é poder
Criar é poder

As mais recentes novelas do futebol português – André Villas-Boas (na foto) e a ida relâmpago para Chelsea; Fábio Coentrão e a musculada saída do Benfica – são uma metáfora aplicável a todas as profissões onde, mesmo dependente do trabalho em grupo, o talento individual faz a verdadeira diferença. Aí, no de trabalho criativo e diferenciado, a entidade patronal tem muito menos força para impor vontades ínvias, míopes e exploradoras, em comparação com outras áreas de atividade, onde as pessoas são tidas como meros números; onde nenhum ser faz, por si, qualquer diferença. Onde a máquina continuará a conquistar prevalência.

Mesmo em situações de crise generalizada – como se vive agora nesta Europa autista e instalada, crente de que o bem-estar geral e a abundância caíam dos céus sem necessidade de produção esforçada e intensa –, os criadoras de diferença, pela qualidade do desempenho individual altamente especializado, estão melhor defendidos deste tsunami da depreciação do valor do trabalho pela comparação com áreas do Globo onde duzentos euros são salário invejável pelos autóctones, e só ao alcance de génios que sejam também trabalhadores incansáveis.

Bem pode Futre tirar dividendos publicitários da sua insanidade momentânea, mas o que irá continuar a inundar a Europa serão produtos made in China e não jogadores de futebol vindos dessas paragens. E, até em Pequim, um Coentrão ou um Villas-Boas, por via das auras exaltantes, poderão sempre auferir rendimentos muito acima dos legalmente declarados por Barroso ou Merkel no seu flébil comando da Europa.

Em economias de mercado, contra os grandes talentos consumíveis, as entidades patronais pouco podem para lá da imposição de milionárias cláusulas de rescisão com que o futebol driblou o princípio comunitário da livre circulação de trabalhadores.

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