Cristiano Ronaldo: a memória curta de um país que exigiu sempre mais
Há algo de curioso na relação entre Portugal e Cristiano Ronaldo. Durante mais de duas décadas, exigimos dele o impossível. E, de forma quase inacreditável, muitas vezes ele entregou-o. Agora, quando os anos passam e o futebol continua a lembrar-nos que nenhum atleta vence o tempo, parece que muitos escolheram esquecer.
Esqueceram quem colocou Portugal no mapa do futebol mundial de forma permanente. Esqueceram quem transformou uma seleção talentosa numa seleção respeitada e temida. Esqueceram quem bateu recordes atrás de recordes, quem carregou a camisola das quinas em centenas de jogos, quem esteve presente nos momentos de glória e também nos momentos de dor.
Cristiano Ronaldo não é perfeito. Nenhum atleta é. Nenhum ser humano é. Mas a facilidade com que alguns procuram reduzir a sua carreira a um penálti falhado, a uma exibição menos conseguida ou a um resultado dececionante revela mais sobre a nossa memória coletiva do que sobre o próprio jogador.
No futebol existe uma verdade simples: ninguém ganha sozinho. Quando Portugal venceu, venceram os treinadores, os colegas, as equipas técnicas, as estruturas federativas e, naturalmente, os jogadores dentro de campo. Mas se ninguém ganha sozinho, também ninguém empata sozinho. Ninguém perde sozinho.
Quando a Seleção Nacional falha um objetivo, a responsabilidade é coletiva. É injusto e intelectualmente desonesto transformar um único jogador, mesmo sendo Cristiano Ronaldo, no rosto exclusivo do sucesso ou do insucesso.
Durante anos, Ronaldo foi criticado por não ganhar títulos com Portugal. Depois conquistou o Europeu e a Liga das Nações. Foi criticado por depender da equipa. Depois acusaram-no de querer resolver tudo sozinho. Foi criticado quando chorou. Foi criticado quando não chorou. A verdade é que muitos dos seus críticos não procuram equilíbrio; procuram apenas um novo motivo para atacar.
O legado de Cristiano Ronaldo ultrapassa os golos, os troféus e os recordes. É um exemplo raro de disciplina, longevidade e profissionalismo. Um jovem da Madeira que saiu de casa ainda adolescente, enfrentou os maiores desafios do futebol mundial e alcançou o topo através de trabalho obsessivo e dedicação diária.
Num tempo em que tantos talentos se perdem pelo caminho, Ronaldo tornou-se uma referência global. Elevou o nome de Portugal em todos os continentes. Levou milhões de pessoas a olhar para o nosso país com admiração. Inspirou gerações de jovens atletas a acreditarem que o talento sem esforço não chega.
Também fora de campo, manteve uma ligação constante às suas origens, à sua família e à sua identidade portuguesa. Nunca renegou o país que o viu nascer. Pelo contrário, fez dele uma bandeira.
Um dia, Cristiano Ronaldo deixará de jogar. Esse dia está mais próximo do que mais longe. E quando acontecer, Portugal perceberá aquilo que tantas vezes só percebe quando já é tarde: que testemunhou uma carreira irrepetível.
A crítica faz parte do desporto. Deve existir. Mas a ingratidão não deve ser confundida com exigência. Podemos discutir decisões, exibições e momentos de forma. O que não devemos fazer é permitir que a emoção do presente apague a dimensão histórica do que Cristiano Ronaldo representa.
Porque os resultados passam. Os recordes podem ser batidos. Mas há figuras que transcendem o jogo.
Cristiano Ronaldo é uma delas.
E Portugal faria bem em não se esquecer disso.
