Daqui não saio
Os meus amigos não falaram de outra coisa esta semana: “Viste o Quaresma no jogo do Porto contra o Gil Vicente? Foi substituído e quase não cumprimentava o Paulo Fonseca. Nem olhou para ele.” Respondi a todos da mesma forma: “Nenhum jogador gosta de ser substituído. Isto acontece todos os dias no futebol. Polémico foi o que fiz no Atlético de Madrid quando era treinado pelo croata Tomislav Ivic.”
Época 1990/91. Fomos jogar a Burgos. E quase provoquei um ataque cardíaco ao Ivic. A história começa com Johan Cruyff. Quando treinava o Barcelona, foi operado ao coração por causa do stress da profissão. O problema de Cruyff foi muito falado em Espanha e um programa de televisão teve uma ideia original: todas as semanas seguiam um treinador que era ligado antes do jogo para analisarem as alterações de ritmo cardíaco provocadas durante a partida e perceber se essa agitação poderia causar problemas cardiovasculares.
Durante a partida, estavam vários cardiologistas e psicólogos no estúdio a comentarem as alterações do ritmo cardíaco. Chegou a vez do Ivic. Jogámos em Burgos, num sábado. Ele foi ligado de manhã depois do treino de sexta, antes de seguirmos para viagem, e passou a ser acompanhado por uma câmara desde aí até ao jogo. Mesmo a dormir. A própria federação espanhola obrigou todos os treinadores a participarem neste programa por causa da pressão social da situação de Cruyff.
OIvic estava com uma batida normal, saudável, sono profundo. Do melhor. Na palestra subiu um bocadinho, mas era normal. Começa o jogo e o Burgos marca. A batida acelera, mas os psicólogos continuam a dizer que não é grave. Sem qualquer perigo. Conseguimos igualar, ainda na primeira parte, e o coração do Ivic continuava ótimo.
Entramos para o segundo tempo empatados. De repente, o coração dele dispara. Os cardiologistas que estão no estúdio ficam em pânico. “O que se passou aqui? Isto é o risco máximo. Pode ter um enfarte agora mesmo. Qual o motivo para isto?” Foram buscar as imagens e descobriram a causa. A 20 minutos do fim, o Ivic quer fazer uma substituição e vejo a placa levantada com o número 10. Para eu sair? Nem pensar! Estou no lado oposto do banco, levanto a mão e grito para ele: “Eu não saio. Vou continuar a jogar. Tire outro.” O Ivic, de joelhos, aos gritos. “Tens de sair. Sai já daí.” O árbitro a mesma coisa. “Português, tens de sair.” “Não. Não vou a lado nenhum. Daqui não saio.” E fico lá dentro. O Ivic quase a morrer. Quase a ter um colapso.
Nos últimos minutos, tenho um azar tremendo: faço um remate ao poste, que seria o golo da nossa vitória e transforma-se na minha desculpa para a imprensa. Depois do jogo, todos os jornalistas entram em campo. “Por que não saíste? Foi a primeira vez que isto se passou no futebol.” Resposta: “Estava com fé em marcar o golo da vitória. Não viram que atirei ao poste?!” Safei-me daquele ataque dos jornalistas logo ali no relvado. Mas assim que desci às cabinas, o delegado de equipa, Carlos Peña, dirige-se a mim: “Chamada do presidente no posto médico do estádio. Quer falar contigo imediatamente.”
Gil y Gil não tinha ido a Burgos, mas já sabia do sucedido porque tinha visto tudo pela televisão. Começou logo aos gritos: “Agora é que estás tramado comigo. Desta vez estragaste tudo. É a última. Vou matar-te, português. Podes acreditar que te vou matar.” Disse-lhe o mesmo que tinha respondido à imprensa: “Presi, tenha calma. Não viu que eu estava com fé e podia ter marcado o golo?” Mas ele continuou a ofender-me. O Ivic nem quis cumprimentar-me. E eu sempre a explicar que estava com fé e a pedir desculpa. No outro dia, alguns cronistas da imprensa generalista chamavam-me assassino: “É por causa de jogadores destes que, por vezes, alguns treinadores têm graves problemas de saúde.” Fui o único jogador do Mundo a fazer isto. Ainda acham que a situação do Quaresma foi polémica?
Uma multa desumana
O Comité de Apelo da Federação Espanhola meteu os pés pelas mãos e mostrou grande falta de humanidade. Num jogo da segunda divisão, Jonas, do Real Jaén, mostrou uma camisola que dizia: “Ânimo, meninos. Dia Mundial Contra o Cancro Infantil.” Ou seja: uma mensagem de apoio às crianças com cancro. Foi multado em 2 mil euros. E a bomba rebentou. Grande contestação de todo o lado contra a federação espanhola. Depois da polémica, o jogador apresentou recurso e o castigo foi levantado. Corrigiram um escândalo. Mas não apaga a primeira atitude. Nunca se pode multar um jogador por causa de uma mensagem tão nobre como esta.
Em tempo de guerra
Quero aproveitar estas linhas para enviar um grande abraço e dar o máximo apoio a todos os jogadores portugueses que estão na Ucrânia. O país esta à beira de uma guerra civil. É inacreditável que ainda possam acontecer estas barbaridades nos tempos que correm. Ainda para mais numa nação que organizou o último Europeu, juntamente com a Polónia. Felizmente nunca passei por uma situação destas nos vários países onde joguei. Nunca estive na pele do Miguel Veloso, Bruno Gama e todos os outros portugueses que jogam na Ucrânia. Mas vivi em Espanha na altura em que a ETA fazia atentados regularmente e sei bem o que é viver com esse medo constante. Só posso desejar muita força para os nossos jogadores que estão na Ucrânia.
«Campeões europeus»
Esta semana regressaram as competições europeias e lembro-me bem desta altura do ano de 1987, quando estava no Porto. Foi a primeira vez que ouvi que podíamos ser campeões europeus. As palavras foram de Pinto da Costa na véspera do jogo da segunda mão dos quartos-de-final, frente ao Brondby. Na primeira mão tínhamos ganho 1-0 no Estádio das Antas. Depois, antes do segundo jogo, ele reuniu toda a equipa no hotel onde estávamos hospedados, em Copenhaga, e disse esta frase que jamais esquecerei: “Se passarmos amanhã, seremos campeões da Europa.” Não se enganou. No dia seguinte empatámos 1-1 e a 27 de maio de 1987 fomos campeões europeus.
