DAVID BORGES: Nuno Delgado, Herói da Nação
NUNO Delgado, judoca português medalhado em Sydney, é, desde a passada terça-feira, mais um ilustre “filho da nação” portuguesa!
Compreende-se que o seja, já que conquistou, para Portugal, não apenas a primeira medalha destes Jogos, como, ainda, a primeira medalha de Portugal na história do judo olímpico.
O país, em cujo mapa desportivo o judo é uma pequeníssima ilha, descobriu num sujeito que não conhecia um novo herói: Nuno Delgado, um nome bem português e um rosto da cor do bronze que conquistou em Sydney.
É um dos rostos de um novo ramo português, que cresceu, e continua a crescer, a partir do pujante tronco da mistura de Portugal com África. Mas é, também, para usar a terminologia abundantemente aplicada no tempo dos assaltos na CREL, o rosto de um “jovem africano”, ou de um “jovem negro”, ou de um “jovem cabo-verdiano”.
Porém, ao contrário do que aconteceu na altura dos assaltos na CREL, não faz a Comunicação Social portuguesa nenhuma alusão desse tipo quando se refere a Nuno Delgado.
NOS TÍTULOS e nas histórias, para além do pormenor da ascendência cabo-verdiana do atleta, refere-se, com evidente orgulho, ao “português Nuno Delgado”, ou ao “judoca português Nuno Delgado”.
Está certo assim; errada foi a maneira como foram rotulados os jovens portugueses assaltantes da CREL.
A forma correcta como Nuno Delgado está a ser referido não me inibe de imaginar a diferença, se ele não fosse judoca e medalhado olímpico e fosse, vamos lá, um jovem delinquente.
Não seria ele provavelmente identificado sumariamente através da cor da pele? Não passaria a ser referido como “jovem africano”, “jovem negro”, ou “jovem cabo-verdiano”?
A diferença entre o jovem Nuno Delgado e os jovens assaltantes da CREL, é que um é campeão desportivo e os outros delinquentes.
No resto, são, um e outros, portugueses, filhos de pais africanos.
Nuno Delgado é um português filho de cabo-verdianos. Tem familiares em Cabo Verde. Tem lá o pai. E a avó continua, aliás, a viver na Achada de Santo António, na ilha de Santiago. E a mãe fala, natural e correntemente, o crioulo de Cabo Verde, em casa, em Portugal.
Nuno Delgado é, pois, um português que tem raízes em Cabo Verde e não as esconde, tendo, aliás, e como deve ser, muito orgulho nisso.
Ele é, como tantos outros filhos de africanos, alguns dos quais assaltaram estações de serviço e afligiram Lídia Franco, cidadão português, ponto final.
POR MUITAS RAZÕES, ainda bem que este português filho de cabo-verdianos ganhou uma medalha olímpica em Sydney.
Em primeiro lugar, porque a Comunicação Social tornou mais evidente a nova realidade portuguesa, que é, felizmente, branca e negra e, por isso, cada vez mais mestiça.
Em segundo lugar, porque o êxito de Nuno Delgado resgatou, em parte, a imagem perdida, nas últimas semanas, por tantos jovens portugueses filhos de tantos pais africanos.
Em terceiro lugar, porque ficou a descoberto a hipocrisia de muitos dos que agora projectando Nuno Delgado como herói nosso, lusitano, excluíam do nosso espaço, ainda há poucas semanas, outros jovens portugueses, delinquentes esses, considerados africanos, negros, cabo-verdianos, que “deviam era ir para a terra deles”.
Em quarto lugar, Nuno Delgado provou que na sociedade emergente da imigração, há jovens delinquentes e jovens brilhantes, tal e qual acontece na sociedade portuguesa “geneticamente pura” que produz, igualmente, jovens delinquentes e jovens brilhantes.
Em quinto lugar, e como referiu o irmão do judoca, pouco depois do sucesso de Nuno Delgado em Sydney, a medalha de bronze pode encorajar outros jovens filhos da imigração a descobrirem no desporto uma forma de se livrarem de muitas das dificuldades segregadoras que enfrentam.
Em sexto e último lugar, ficou evidente, uma vez mais, que o desporto pode ser, se eficazmente orientado também nesse sentido, o principal sector de integração num país de forte imigração como é Portugal.
EM RELAÇÃO a este último ponto, espanta-me que o país, as autarquias e os clubes continuem tão longe de um objectivo que me parece essencial. Espanta-me que não sejam capazes de investir na captação de tantos talentos escondidos na massa de jovens cidadãos portugueses filhos da imigração, quase todos disponíveis para o desporto, apaixonados pelo desporto e ansiosamente à espera de oportunidades e meios para fazer desporto.
De que é que se está à espera para iniciar o caminho em direcção a esse importantíssimo e duplo objectivo que é o de multiplicar campeões e, assim, garantir uma força desportiva crescente e de acelerar o processo de integração dos jovens cidadãos portugueses filhos da imigração?
Vamos a isso!
Não pode ser ocasional o passo certo, igual ao que foi dado por Nuno Delgado e que o conduziu a uma medalha olímpica; não pode ser normal e, por isso, multiplicado, o passo errado que os jovens assaltantes da CREL deram, entrando aí na delinquência e manchando a imagem da comunidade africana imigrante.
(*) a partir de hoje, a opinião de David Borges passa a publicar-se todas as sextas-feiras
