Opinião

Paulo Teixeira Jurista/Consultor de Empresas

De Dale Dover à reconquista do título em 2026

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A história do basquetebol do FC Porto é uma das mais ricas do desporto português. Tem momentos de glória, períodos de domínio absoluto, uma experiência empresarial com a constituição de uma Sociedade Anónima Desportiva, que levou à extinção da equipa principal e um renascimento que culminou no título nacional conquistado em 2026, dez anos após o último campeonato.

Reza a história que o basquetebol entrou para a lista das modalidades praticadas no FC Porto decorria o ano de 1926, apenas treze anos depois de a modalidade ter chegado ao nosso país. O clube teve um papel decisivo no desenvolvimento da modalidade no Norte, participando na criação da Associação de Basquetebol do Porto e da Federação Portuguesa de Basquetebol.

Os primeiros grandes sucessos surgiram nos anos 50, com os campeonatos nacionais de 1951/52 e 1952/53. Contudo, a verdadeira transformação da modalidade viria na década de 1970. A era de Dale Dover, um homem que mudou tudo e tantas vezes o vi jogar no Pavilhão Américo de Sá (existente no complexo das Antas).

O americano Dale Dover chegou ao FC Porto em Novembro de 1971, com apenas 22 anos, era um jogador de enorme qualidade e espetáculo, considerado por muitos o melhor estrangeiro de sempre a atuar em Portugal. Como jogador-treinador, levou o FC Porto ao título nacional em 1971/72, quebrando um jejum de 19 anos sem campeonatos, tal como aconteceu no futebol em 1977/1978. A sua influência foi tão marcante nesta modalidade, que os pavilhões enchiam para o ver jogar, como bem me lembro dessas épocas. Décadas depois, e com a inauguração do Museu no Dragão, o clube imortalizou-o com uma estátua no museu do Dragão. Dover foi o símbolo do renascimento do basquetebol portista e a primeira grande figura internacional da modalidade em Portugal. Faleceu em 2018, com 69 anos.

No final da década de setenta, sob a liderança de dirigentes como Matos Pacheco e com a influência de figuras como Jorge Araújo, o FC Porto profissionalizou a secção de basquetebol. E aqui o resultado foi imediato, o clube conquista o campeonato e Taça de Portugal, na época 1978/79. Nas décadas seguintes, o FC Porto tornou-se uma potência nacional, acumulando títulos. A modalidade ganhou estabilidade, estrutura e ambição europeia.

Em 1997, foi criada a FC Porto Basquetebol SAD, numa época em que muitos acreditavam que a profissionalização empresarial seria o caminho para elevar a competitividade do basquetebol português. A SAD permitiu ao clube manter equipas competitivas e conquistar diversos títulos nacionais e durante este período, o FC Porto venceu campeonatos, taças e alcançou algumas das melhores participações europeias da sua história, incluindo presenças nos quartos-de-final da Taça Saporta/EuroCup.

A crise financeira que afetou o desporto português após 2008 acabou por atingir também o basquetebol portista, e no verão de 2012, o FC Porto decidiu terminar o projeto profissional. A equipa sénior deixou de competir e a FC Porto Basquetebol SAD foi dissolvida. A decisão provocou enorme contestação entre os adeptos, uma vez que o clube era então vice-campeão nacional.

Embora a modalidade não tenha desaparecido totalmente do clube, a saída da equipa principal representou um dos momentos mais dolorosos da história do basquetebol azul e branco.

Anos mais tarde, o FC Porto decidiu reconstruir o projeto. A modalidade regressou gradualmente à elite nacional, apoiada numa nova estrutura integrada diretamente no clube e não numa SAD autónoma. O objetivo era recuperar a identidade histórica e voltar a lutar pelos títulos. Nomes como Alberto Babo e Júlio Matos, antigos jogadores que chegaram a dirigentes (o primeiro ocupa hoje um lugar de destaque na Direção do Presidente André Villas Boas) estão ligados a esta nova vida do basquetebol azul e branco.

A chegada de Fernando de Sá ao comando técnico em 2022 representou um passo importante nessa recuperação. Antigo capitão e campeão pelo clube, regressou para liderar uma nova geração de jogadores.

E a 14 de junho de 2026, o FC Porto voltou ao topo do basquetebol português. Na final da Liga, os dragões derrotaram o Benfica por três jogos contra um, vencendo o quarto jogo por 75-71 no Dragão Arena. Uma final imprópria para cardíacos, já para não falar no segundo jogo disputado na Luz. O clube conquistou assim o seu 13.º campeonato nacional e interrompeu um jejum de dez anos sem títulos de campeão.

O triunfo teve um significado muito especial, para além de ter quebrado a série de quatro campeonatos consecutivos do Benfica, foi alcançado após recuperação de uma derrota no primeiro jogo da final, representou a consagração do projeto reconstruído após o desaparecimento da SAD e devolveu o FC Porto ao lugar que historicamente ocupou no basquetebol português.

É uma história que começa com o génio de Dale Dover, passa pela ambição da SAD, sobrevive à quase extinção e culmina com o regresso ao topo nacional em 2026, um percurso de meio século que explica porque o basquetebol continua a ser uma das modalidades mais identitárias do FC Porto.

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