De memória
Não sei quantos telespetadores tem a RTP Memória, mas eu sou um deles. Incluindo quando se trata de ver jogos de futebol antigos. Ou o “Domingo desportivo”, apresentado há 20 anos por Ribeiro Cristóvão ou por Gabriel Alves. No Porto talvez façam a piada aos de Lisboa: “É para se lembrarem de quando ganhavam”. Mas até o Porto foi campeão europeu há 25 anos.
O futebol era então mais lento, os “três grandes” eram muito maiores que os outros, que jogavam mais para o empate. Os árbitros pareciam mais tendenciosos, não havia quinhentas câmaras de TV em cada campo. Havia guardas pretorianas nos clubes, dirigentes manhosos, clubes falidos. Havia jogadores incríveis e equipas inesquecíveis. E havia menos atividade empresarial. Mesmo que houvesse mais suspeitas de corrupção.
O “negócio” não abastardou o futebol, melhorou-o. Apesar de todos os vícios, a institucionalização dos clubes em SAD, e correspondentes cotação em Bolsa, pode não ter sido um êxito total. Mas obrigou a uma transparência que antes era impossível e até impensável. Por isso se construíam cascatas de dívidas e se ludibriavam os sócios com falsas expectativas. Hoje qualquer português reconhece a loucura de uma frase então dita por um presidente: “Vamos resolver o problema do défice, vamos emitir obrigações”. Não era solução alguma, era agravar o problema.
A profissionalização das estruturas de futebol está longe de ter conseguido um mar de contas cristalinas e de dirigentes de comportamento irrepreensível. Tanto assim é que muitos clubes estão simplesmente falidos. Mas o futebol não mudou só dentro das quatro linhas. Nos clubes, na sua gestão e atividades empresariais mudou muito – e para muito melhor. E ver qualquer “Domingo desportivo” do final dos anos 80 também mostra isso.
