De peito feito
Não há colunista que não tenha gabado, em tempo próprio, a coragem de Bruno de Carvalho em desafiar o sistema de agentes e dirigentes. Esta semana, as sarrafadas que deu em Islam Slimani e Marcos Rojo mostram mais do que autoridade, mostram que está a arriscar.
Arriscar é poder ganhar ou perder. Ao ser o próprio presidente (e não o treinador) a revelar que os jogadores estão sob alçada disciplinar por forçarem a saída do Sporting, Bruno de Carvalho está a mostrar que manda e quem manda. E está, além disso, a dar um “recado à navegação”, como afirmou à Sporting TV. É isso que pode ganhar: respeito, dignidade e disciplina.
O risco está em ter jogadores contra a direção. Slimani e Rojo tiveram exibições espetaculares no Mundial e é compreensível que queiram sair do Sporting. Não se trata de gostar ou não do clube, trata-se de compreender que no futebol quase todos os grandes jogadores jogam não por amor à camisola mas pelo salário e projeção. O mesmo aconteceu com o Benfica e o Porto: viram jogadores voar porque querem estar em clubes da Champions (como Mangala e Fernando) ou ganhar um salário que os clubes portugueses não podem pagar (como Garay ou Rodrigo). Quem quiser segurar um jogador contrariado, vai vê-lo desmotivado.
O Sporting pode ter de vender os dois jogadores pelos valores das cláusulas. Ou, no caso de Rojo, ser obrigado a comprar a parte do passe que não detém. E então o feitiço vira-se contra o feiticeiro. É ainda preciso saber como os outro jogadores reagirão. Se tudo correr bem, Bruno vence o sistema. Se não, arrisca-se a ficar orgulhosamente só.
P.S.: Há duas semanas, aqui escrevi sobre os gémeos Oliveira, num texto sobre um desporto tão duro quanto poucas vezes acarinhado: o ciclismo. Entretanto, Ivo Oliveira sagrou-se campeão do Mundo de perseguição em pista. 17 anos e tanto que já deu! Esperemos que tenha cabeça que chegue para não ser engolido pelo sucesso. Porque cabeça para ganhar já mostrou que tem. E pernas.
