Deco e Juninho
ENIGMAS – Um ou dois pontas-de-lança; dois ou três centrais; marcação individual ou à zona; líbero ou defesa em linha; 4x3x3 ou 4x4x2. Eis algumas dúvidas possíveis antes de qualquer jogo, enigmas que o treinador deve resolver com inteligência e critério, em função do momento da sua equipa e da qualidade do adversário, tendo como objectivo máximo cumprir a missão de ganhar. Mas o futebol, em todo o Mundo e de forma muito visível em Portugal, tem outras regras que acompanham a avaliação táctica do jogo. Por exemplo, no manual de instruções dos grandes clubes há mais duas regras básicas que não se ensinam mas aprendem-se com o tempo: os nossos não são expulsos e não há "penalties" contra. Em casa, então, não é uma regra, faz parte da Constituição e quem não a cumprir arrisca-se a pesada pena.
DECO – Em muitas ocasiões verifica-se que o mote para a crítica passa apenas pela quantificação de factos anormais. Quando se refere em tom crítico e até jocoso, o elevado número de grandes penalidades favoráveis ao Sporting esta época, a questão central é avaliar se tem havido razão para as assinalar. Quando, em tempos, o Benfica se queixava de que, pelo contrário, não tinha "penalties" a favor, o importante era saber quantas vezes foi verdadeiramente injustiçado. Nas Antas, frente ao Beira-Mar, passaram-se "coisas estranhas" e é verdade – o árbitro expulsou dois jogadores do FC Porto. Se em relação a Jorge Andrade pouco há a dizer, sobre Deco o problema é mais grave e preocupante: trata-se de um grande artista que é, em simultâneo, um dos mais geniais jogadores da actualidade – mesmo sabendo que o campo de recrutamento é grande, terá o actual escrete melhor que ele?
JUNINHO – Há cerca de um ano, Deco pisou o risco e em nove jogos consecutivos viu nove amarelos e um vermelho. Confirma-se que, ciclicamente, passa por fases de ansiedade extrema, assumindo o desejo de fazer justiça com as próprias mãos, com os pés, através de insultos e sempre de cabeça perdida. Com o Beira-Mar foi esse desvario, num momento sem importância, antes de um livre a favor do FC Porto, que deitou tudo a perder. Porque do outro lado estava um conjunto tranquilo, guiado por um irmão de talento chamado Juninho Petrolina, ele sim justiceiro legítimo, através de armas com origem no futebol que o percorre da cabeça aos pés. O passe para o segundo golo, arriscado e difícil de executar, foi das coisas mais belas, espectaculares e bem feitas que se viram nesta I Liga – o centro picado para o tento da vitória foi apenas o último sinal divino de quem viveu e soube aproveitar a inspiração.
JOÃO PINTO – Por falar em jogadores visitados pela inspiração, ninguém neste País está a jogar mais e melhor que João Pinto. Porque em boa verdade ninguém tem mais talento do que ele, mas também porque vive feliz, motivado e só lhe pedem para entrar em campo e fazer o que sabe. O resto, tendo como referência os últimos tempos, deve-se ao sentido de responsabilidade – com origem nos tempos da adolescência e apurado ao longo da vida – de quem percebeu, automaticamente, quais as necessidades da equipa para os oito dias entre os encontros com Farense e V. Guimarães, ambos marcados pela inferioridade física de Jardel. Marcou dois golos que valeram duas vitórias, devolvendo o Sporting à liderança da I Liga, na qual o grande adversário dá pelo nome de Boavista, que deu em Faro a mais extraordinária demonstração de poder da época.
