Desamores à camisola
Muito provavelmente os principais clubes do futebol português vão começar a repensar a forma como trabalham nos escalões de formação. As recentes “birras” de jogadores como Bruma, Tiago Ilori, Atsu ou Oblak vieram mostrar que os atletas das camadas jovens precisam de um maior trabalho do ponto de vista pessoal e emocional.
Muito para além de jogadores, os clubes têm a responsabilidade de formar homens. Pessoas que não se deixem influenciar facilmente e tenham a capacidade de pensar pela sua própria cabeça. E mais do que isso, que saibam lidar com o preço da fama, traçando metas a médio e longo prazo, não se deixando levar pelo aceno precoce do estrelato e de alguns milhares de euros.
Se os clubes não fizerem isto, deixando que os seus atletas se deixem conquistar por valores materialistas, motivados por agentes do futebol que não estão a defender corretamente os interesses dos seus representados, nem do próprio futebol, o investimento na formação deixa de fazer sentido. Há que criar uma sintonia entre aquilo que são os objetivos de valorização de ativos dos clubes e a ascensão de carreira dos jogadores. E para isso acontecer há um timing certo, um momento em que ambas as partes podem capitalizar esse trabalho realizado.
Um jogador jovem de elevado potencial não deve sair do clube sem cumprir duas ou três temporadas ao serviço do mesmo. Só assim o atleta poderá crescer e capitalizar, desportiva e financeiramente, a aposta que foi feita em si. Daí que seja completamente absurdo ver jogadores formados pelo clubes a pensar que, ao fim de 10 jogos pela equipa principal, estão prontos para dar o salto.
Se continuasse a evoluir no Sporting, Bruma poderia ter sido vendido por um valor 3 ou 4 vezes superior. Seria peça chave no onze leonino e asseguraria presença assídua na Seleção Nacional. Esta determinação em sair para a Turquia poderá colocar alguns travões ao seu crescimento. E ouvir Tiago Ilori (internacional jovem português que até já abre a porta à seleção inglesa) dizer que não se importaria de ficar dois anos sem jogar, para sair para o Liverpool, é chocante e só demonstra ingratidão para com o clube que o lançou. Ambos os jogadores preferiram o incerto, ao invés de uma trajetória de crescimento em Alvalade.
Eo que dizer de Christian Atsu? Foi estrela dos juniores do FC Porto, brilhou no empréstimo em Vila do Conde e depois de chegar à equipa principal dos dragões preferiu desertar no ano que poderia ser da sua afirmação. O ganês sonhava com a liga inglesa e foi para o Chelsea, mas acabou emprestado ao Vitesse. Se tivesse ficado no FC Porto, isso não facilitaria a chegada a Inglaterra e a concretização de um negócio mais proveitoso?
Oguardião esloveno Oblak também protagonizou uma novela no Benfica (que tem tido igualmente um bico de obra com o júnior Sancidino Silva), acabando depois por ser integrado no plantel. Pode ser que ainda recupere o tempo perdido, já que tem todas as condições para se afirmar como titular a médio prazo. No entanto, o seu comportamento deixou muito a desejar.
Todos estes atletas têm em comum o facto de não terem nascido em Portugal. Como muitos outros, vieram muito novos para cá, encarando o país como um trampolim para outros mercados. Não sentem a camisola dos clubes que os acolhem e revelam ambição desmedida. Valerá a pena ter tantos estrangeiros nos campeonatos nacionais de juniores?
O CRAQUE
O diamante cafetero
É a questão do momento no universo azul e branco. Quando será Juan Quintero titular? O seu talento não engana. Estamos na presença de um jogador muito habilidoso e capaz de resolver uma partida a qualquer momento. Com força, velocidade e técnica apurada, o maestro colombiano tem todas as condições para ser a estrela maior do Dragão. Mas a tenra idade aconselha a calma e prudência. Até se afirmar no onze, tem de ganhar maturidade e experiência competitiva ao mais alto nível. Paulo Fonseca tem um diamante nas mãos.
A JOGADA
As laterais do Benfica
Com a saída de Melgarejo para a Rússia e a incerteza provocada pelas fracas exibições de Bruno Cortez (na foto), o lado esquerdo da defesa do Benfica parecia órfão de alguém que pudesse assumir a titularidade. Siqueira surgiu no último dia do mercado e será o dono do lugar, tendo em conta a lista de inscrições na Liga dos Campeões. Resta saber como é que o brasileiro se integrará na tática encarnada. Jesus gosta de laterais ofensivos e Siqueira pode assumir esse papel. Mas terá ele pulmão para ajudar no processo defensivo?
A DÚVIDA
À espreita da oportunidade
Se há jogadores que não dão o devido valor à presença na equipa principal, preferindo rumar rapidamente a outros destinos, privilegiando a carteira em vez da carreira, há outros que continuam à espera de um lugar ao sol. Apesar do talento que vão mostrando nas equipas B e na Seleção Sub-21 (que tem feito belas exibições), os médios portugueses Tozé, André Gomes e João Mário, assim como os extremos Ivan Cavaleiro e Ricardo Esgaio, continuam sem jogar na Liga principal. Quando surgirá a oportunidade?
