Di Pace deve ter sofrido...
Devo confessar que fui um dos 20 e tal mil sofredores que no domingo foram em peregrinação ao Estádio do Restelo para apoiar a equipa do Belenenses no que parecia ser o decisivo jogo com o Sp. Braga. Cheguei em hora dolorosa. Miguel Di Pace, o "maestro" argentino de há meio século, dava uma volta ao campo debaixo de uma trovoada de aplausos. Ao contrário do que esperava, 90 por cento da assistência era de adeptos azuis, o que prova a popularidade de que ainda desfruta o clube da Cruz de Cristo. Mas a "dor" pela revisita de Di Pace tinha mais a ver com a tristeza que se antevia para daí a alguns minutos - quando entrou em acção (?) uma equipa de pouco talento e de poucos talentos, sem alma e sem ambição, que fez uma paupérrima demonstração de valor para merecer ficar na SuperLiga. No camarote, como Di Pace deve ter sofrido! E ele tinha regressado havia pouco à Argentina naquela tarde, absolutamente extraordinária, em que naquele mesmo estádio, o Belenenses do seu ex-companheiro Matateu "cilindrava" o Sp. Braga por... 9-3! Outros tempos, tempos em que não havia peregrinos, que a fé não sabe meter golos.
1. F. Santos
Independentemente do que se possa pensar dele como treinador, o engenheiro goza das simpatias gerais e, mesmo aqueles que o vaiaram, em Alvalade, depois das eliminações das taças, a mãos turcas e sadinas (Santo Deus!), voltaram a aplaudi-lo em posteriores circunstâncias. Creio que isso se deve à sua postura de franqueza e lealdade, à falta de pose e de vedetismo, à pouca disposição para dizer mal dos outros e para arranjar desculpas esfarrapadas para os fracassos. Fernando Santos apresenta-se como um homem comum e não como um deus que tudo sabe e sobre todos paira cheio de vento e prosápia. Fico feliz por saber que vai continuar em Alvalade. Só não sei se isso será bom para o Sporting.
2. C. Queiroz
Podem correr com ele e com o José Peseiro, que de uma fama já Carlos Queiroz não se livra: a de treinador merengue mais azarado dos últimos anos. E ele ajuda. Aquela frase "ninguém foge ao seu destino" é fatal para quem acredita que somos nós que condicionamos (para o bem e para o mal) o nosso destino... E já nem me refiro às bolas que batem na trave e no poste, aos penalties falhados, aos jogadores expulsos. O azar de Queiroz - e talvez também a sua culpa - é que galácticos como Beckham, Zidane, Raúl ou Ronaldo valem bem menos do que os "pavones" que CQ pusesse a jogar no seu lugar. Direi mais: em termos de produção, aquele quarteto dourado vale, neste momento, zero. ZERO!
3. Camacho
Alturas há na vida em que não nos é permitido dizer 'não'. Qualquer trabalhador especialmente qualificado não tem o direito - perante a sua família e por respeito a si próprio e à profissão - de recusar um desafio profissio- nal mais bem remunerado e assente em bases sólidas. Se o Real Madrid quiser Camacho, é dever deste largar tudo e acorrer ao chamamento. Foi em nome desse princípio que Queiroz deixou o Manchester há um ano, e que José Mourinho vai agora dizer adeus a Pinto da Costa. O que eu lamento é apenas que o treinador espanhol, depois de ter transformado, contra tantas marés e marinheiros, uma manta de retalhos numa boa equipa, deixe a meio trabalho tão notável.
4. Quem é? É o Benni...
Com uma assombrosa desfaçatez, o FC Porto e a sua equipa quase portuguesa, depois de terem ganho na época passada a SuperLiga, a Taça de Portugal e a Taça UEFA, já limparam esta temporada a Supertaça portuguesa e a SuperLiga, ameaçando conquistar ainda, nos próximos 15 dias, a Taça de Portugal e a Liga dos Campeões. Serão sete títulos em dois anos e em oito troféus possíveis, já que falhou apenas a Supertaça europeia, perdida para o Milan. Todo este trabalho assentou, já o escrevi, numa estrutura que funciona de forma profissional e implacável, na capacidade - que ultrapassa muito o seu estilo faroleiro - de José Mourinho e... na sorte. Há quem não goste que se chame a sorte à colacção, mas têm que ter paciência. Imagine-se o último êxito portista, uma coisa de loucos, obtido já para além de tudo o que existe de racional - o "hat-trick" de Benni McCarthy, que lhe deu a liderança da tabela final dos goleadores 2003/04. Em plena crise de forma e (julgava-se) de confiança desde o regresso de Derlei, o sul-africano ainda marcou dois golos, para surpresa geral. Mas três? Isso é que era bom! Errado... O Benni resolveu fazer um bonito, um pontapé de bicicleta. Falha-se nove em dez, mas ele... acertou à primeira! Com um Porto destes, só mesmo um tratamento com bagaço...
5. Penúria
Este futebol português não tem cura, mas dia chegará em que a realidade será mais forte do que todos os aventureirismos. Li que o Varzim já deve três meses de vencimento aos jogadores e talvez aí se explique como um forte candidato à subida no final da 1.ª volta acabou a Liga de Honra em 4.º lugar. Ou terá sido ao contrário? A equipa afundou-se e a falta de pagamento de salários constituiu uma retaliação? E no Felgueiras, que Diamantino Miranda conseguiu uma vez mais safar, o atraso nos ordenados já vai em cinco meses, sendo o vencimento mais alto de 240 contos/mês! É este o futebol que se pretende ver campeão europeu? Temos sempre mais olhos que barriga é o que é.
Perguntas leva-as o vento...
1. Quem é a esposa (elas não são mulheres, são esposas...) de um conhecido craque que pinta de louro o cabelo à filha para que ela fique igual à mãe?
2. Quem é o director de jornal com telhados de vidro que passa a vida a atirar pedras ao telhado do vizinho mas que não consegue sequer a esmola de uma respostazita?
3. Qual é o clube em que os jogadores, quando vêem o técnico-adjunto a cortar presunto, dizem: se a faca chega ao osso, lá tem de ir o presunto para Barcelona!
4. Qual é o conhecido (e prestigiado) responsável do nosso desporto que não foi aos Prémios Laureus porque diz que não ganha o suficiente para alugar um smoking?
5. Qual é o controverso árbitro que no sábado passado foi muito aplaudido em Palmela, antes do jogo de homenagem aos campeões distritais (Setúbal) de juvenis?
O vento traz as perguntas, o vento leva as respostas...
