Do ressabiamento
Duas das nossas maiores glórias não têm sido muito bem tratadas pela imprensa internacional: Mourinho, por causa das derrotas no Chelsea; Ronaldo, por causa do "estranho mundo" em que vive, segundo um documentário. Não é serem postos em causa que espanta. É a violência dos argumentos. Ataques no lugar de críticas. Caráter em vez de carreira.
Em ambos os casos, os ataques são demolidores e exagerados. Talvez sejam um refluxo dos elogios pelas conquistas de anos. Parece ressabiamento.
José Mourinho é muitas vezes acusado de ser arrogante. Não o é. É imodesto. E os génios podem ser imodestos. O treinador é provocador, insolente, respondão, antipático amiúde – mas sim, é um génio. O ano na liga inglesa está a ser um desastre e só as competições internacionais podem salvar a época. Até por isso, foi espantoso ver o apoio na semana passada dos adeptos do Chelsea, um estádio inteiro a cantar o seu nome num comovente apoio coletivo. Talvez seja gratidão, a um treinador que deu ao Chelsea o que ninguém antes dera. Ou talvez seja confiança.
Com Ronado é diferente. Bastou um documentário sobre ele para que vários jornais publicassem textos sobre as suas alegadas taras num mundo em que vive solitário. Palavras a mais sobre ele e a menos sobre o seu extraordinário valor como jogador. A grandeza também está em reconhecer os que são maiores do que nós – e não em aproveitar as suas falhas para descarregar maldade. Mourinho e Ronaldo nem sequer se gramam um ao outro. Eu gramo-os aos dois. Ainda calarão os que os querem calados. Com vitórias. Não há moeda melhor.
