Don Vicentini
Tenho uma reunião marcada para as 10 da manhã, perto da minha casa. Posso sair às 9h45 e chego sempre a tempo. Mas acordo às 7 da manhã. Sem despertador. Sem sono. Quero dormir mais e não consigo. A cabeça não deixa. O corpo não deixa. Estou completamente ansioso. Isto não me acontecia desde o dia das meias-finais entre Portugal e Espanha no Euro’2012. Também nessa altura levantei-me como uma mola a pensar que só nos faltava um jogo para estarmos na final. Só precisávamos de vencer a Espanha e podíamos ser campeões da Europa.
Voltou a acontecer-me agora. Na última quarta-feira. No dia do Atlético de Madrid-Barcelona. No dia em que os colchoneros acabariam por vencer o Barça e apurar-se para as meias-finais da Champions, quatro décadas depois da última vez. Era para ter ido ao mítico Vicente Calderón para ver o jogo. Mas tinha compromissos inadiáveis em Portugal que me impediram de ir a Madrid.
Por volta das seis e meia da tarde já tinha tratado de tudo e não conseguia tirar a cabeça do jogo. Faltava pouco mais de uma hora. Fui para casa e sentei-me no sofá. À frente da televisão. À espera do apito inicial. A ansiedade que estava a sentir só podia mesmo ser comparada ao que me ia na alma quando era jogador antes de entrar em campo nestes grandes jogos.
E que jogo foi este! Que vitória. Que demonstração de classe dada pelos craques do grande Cholo Simeone. Aos cinco minutos, já estávamos a ganhar 1-0 com um golo do Koke. Gritei tanto que acho que se ouviu no Calderón. Foi um início fulgurante. Podíamos ter feito mais golos e “matar” logo a eliminatória na primeira parte. Bolas ao poste, bolas à trave. E o meu coração aos saltos. Fizemos um jogo perfeito contra uma das melhores equipas do Mundo. Contra o clube que tem dominado a Champions nos últimos anos. Sempre soube que podíamos tirar o Barça desta competição e continuar a perseguir o nosso sonho de estar na grande final de Lisboa. Afinal, esta época já tínhamos jogado quatro vezes contra eles e ainda não conhecíamos o sabor da derrota. Continuamos sem conhecer. Graças a uma equipa que joga sempre com coragem, raça e determinação. Que corre mais do que qualquer outra. Graças a jogadores como o Tiago. Para mim, foi o melhor em campo. Esteve em todo o lado.
Na primeira parte, levou uma finta terrível de Neymar, quando o brasileiro fez a bola passar-lhe por debaixo das pernas. Um “túnel” daqueles dói. Só um jogador muito experiente consegue passar por cima de um momento desses e continuar a jogar a um nível supremo sem ficar afetado. O Tiago é esse jogador. Com 32 anos, está melhor do que nunca. Já o disse várias vezes: se fosse o Paulo Bento, fazia tudo para tentar convencer o Tiago a voltar para a Seleção. A jogar desta maneira, neste momento, é um dos melhores médios do Mundo. E tem sido um dos responsáveis por me dar tantas alegrias nesta época genial que estamos a fazer.
Quando o jogo acabou, estava aliviado. E emocionado. E cansado. Sem sair do sofá, parecia que tinha acabado de jogar. Foi uma noite mágica para todo o mundo rojiblanco. Vou guardar para sempre aquelas imagens do público no estádio. A vibrar com cada momento do jogo. Até ao apito final. É a melhor afición do Mundo. E, mais uma vez, voltou a dar força à equipa. São eles que fazem do Calderón um dos estádios mais míticos do futebol mundial. O meu querido Don Vicentini, como gosto de lhe chamar.
Na sexta-feira, ficámos a saber que vamos defrontar o Chelsea. Sou um grande amigo do José Mourinho e desejo-lhe sempre o melhor, mas aqui nem preciso de lhe dizer o que sinto, claro. Toda a sorte do Mundo para todos os jogos que faça. Menos para estes dois.
Esta eliminatória entre o Atlético Madrid e o Chelsea tem outro fator importante. O nosso guarda-redes, o belga Courtois, está emprestado pelos ingleses. E o negócio foi feito com a chamada “cláusula do medo”. Ou seja: se o Atlético quisesse utilizar o Courtois contra o Chelsea, teria de pagar cerca de 3 milhões de euros por cada jogo. Neste caso, perto de 6 milhões de euros para os dois jogos das meias-finais.
No entanto, a UEFA já disse que os londrinos poderão arriscar uma pesada sanção se tentarem impor esta cláusula e que a mesma é inválida para jogos das competições europeias. Mas o meu medo, enquanto colchonero, é se o Courtois recebe uma chamada do Abramovich a dizer: “Não jogues.”
Fica a pergunta: qual iria ser a reação do Courtois numa situação dessas, ficando entre a espada e a parede? O que fariam vocês? Só espero que ele jogue frente ao Chelsea. Para mim, é o melhor guarda-redes do mundo. E com ele na baliza, é mais fácil alcançar o grande objetivo. Como todos os adeptos do Atlético, sonho chegar à final de Lisboa. E, de preferência, contra o Real Madrid, o nosso eterno rival. Aupa, Atleti!
GRANDE CALDEIRADA
Sempre especial
O meu amigo Zé nunca se entrega. Na primeira mão dos quartos-de-final, o seu Chelsea tinha perdido 3-1 em Paris. Os três golos que sofreu foram erros terríveis. Muitos apressaram-se a dizer que o Chelsea estava morto. Talvez… se tivesse outro treinador. Mas uma equipa de Mourinho nunca morre. Está sempre viva. A lutar até ao fim. Porque ele é especial. E as suas equipas também. Na segunda mão, os jogadores mostraram um coração enorme e eliminaram o PSG noutra grande noite europeia do meu querido amigo Zé. Só espero que não consiga fazer o mesmo nas meias-finais.
NÓS LÁ FORA
O boato mais nojento
O internacional francês Lass Diarra teve de desmentir um boato terrível. O ex-jogador do Real Madrid (agora ao serviço do Lokomotiv Moscovo) foi acusado, pelo jornal inglês “Daily Mirror”, de apoiar a jihad (guerra santa) na Síria e de ter estado como guerrilheiro no país. O jornal publicou mesmo um vídeo com alguém a fazer-se passar pelo jogador e a dizer que estava na Síria. Uma invenção nojenta, que podia ter sido péssima para Lass. Felizmente, tudo se esclareceu com um desmentido dos seus advogados. E, passados uns dias, mais calmo, Lass até reagiu com humor através da sua conta no Twitter: “Na Síria? Que piada, pessoal. Boa-noite a todos”, escreveu, em francês, com uma foto dentro de um jato particular.
DO MEU ALBÚM
O sonho tão perto
Em 1987, ao serviço do Porto, venci o Brondby e passei às meias-finais da Champions (nesse ano acabámos por vencer a competição). Quando se chega a esta altura, os jogadores começam a sonhar com a taça. É normal. A partir daqui tudo é possível. É isso que sentem todas as equipas, como o Benfica. Calhou com a Juventus na Liga Europa, o adversário mais forte, mas tem condições para chegar novamente à final. Pena que o Porto tivesse uma noite para esquecer em Sevilha. Mas, mesmo assim, fez uma boa campanha numa época que não tem corrido bem. Portugal continua vivo nas competições europeias.
