Dramas que não existem
Em apenas quatro meses, já se atiraram muitas pedras sobre o FC Porto versão 2014/15. Falou-se de crise, mau momento e até do lugar em perigo do treinador. Mas olha-se para os números dos três grandes até agora e a conclusão é esta: os dragões são a equipa com mais vitórias e menos derrotas em jogos oficiais e também o conjunto que mais marca e menos sofre golos. Pode nem tudo estar a 100%, mas o cenário de mau momento é, e foi, manifestamente exagerado.
Num plantel que recebeu esta temporada 16 elementos novos seria imprudente pensar, por maior que fosse a qualidade individual dos jogadores, que a equipa começasse logo a executar um futebol brilhante e arrasador. As equipas levam tempo a construir-se. Há conceitos de jogo que se tentam implementar, rotinas que se vão ganhando e um natural crescimento que só se consegue em alta competição e muitos jogos nas pernas.
Com um calendário preenchido e um plantel jovem para comandar, onde os erros vão sempre surgir e servir de lição futura para que os atletas compreendam o papel que têm de desempenhar, só um treinador competente e com uma liderança forte poderia assumir este desafio de fazer crescer os jogadores. Neste aspeto, Julen Lopetegui tem surpreendido pela positiva, pela capacidade de dar resposta às adversidades e pela motivação que insere no balneário, sem descurar a disciplina.
Quanto à tão falada rotatividade do plantel, que tanto pode servir como argumento para criticar ou elogiar, dependendo do ponto de vista, o certo é que treinador espanhol está a garantir um conjunto de 17/18 jogadores sempre em competição, condição que pode fazer toda a diferença na fase mais decisiva da época. Basta recordar que este foi um dos principais trunfos que levou o Benfica ao título no ano passado.
O FC Porto está em processo de crescimento. Já vimos a equipa protagonizar momentos brilhantes de futebol, como também a cometer erros infantis que comprometeram a conquista de pontos e a Taça de Portugal. Mas à medida que a máquina for sendo afinada, é natural que os erros comecem a ocorrer menos vezes e que a qualidade do futebol portista ganhe maior consistência.
E mesmo nesta fase, a produtividade da equipa é já muito apreciável, com 9 vitórias, 4 empates e apenas uma derrota em 14 jogos oficiais, onde marcou 29 e sofreu 9 golos, com a equipa bem embalada para garantir os oitavos-de-final da Liga dos Campeões (Benfica e Sporting não podem dizer o mesmo) e a manter em pleno as aspirações de se sagrar campeã nacional, os dois grandes objetivos da época azul e branca.
O adepto portista quer sempre mais. É a chamada cultura de exigência, que caracteriza os dragões de uma forma distinta de qualquer outro clube em Portugal. Daí que nem sempre compreenda que a equipa tem etapas para cumprir e que, por vezes, não é possível jogar bonito. André Villas-Boas chegou mesmo a dizer que não se pode esperar “ópera de 5-0 em todos os jogos”, precisamente porque isso é impossível de realizar numa equipa ainda em construção.
Assobiar ao primeiro passe falhado ou remate ao lado de nada serve a uma equipa que precisa de ser motivada e apoiada. É também aqui, no espírito positivo das bancadas, que o crescimento e galvanização de uma equipa se pode alimentar. Ninguém sabe até onde chegará o FC Porto este ano, mas nesta altura o balanço só pode ser positivo.
O CRAQUE
O elástico Matheus
Ainda a dar os primeiros passos em Portugal, o brasileiro Matheus foi um dos heróis da vitória do Braga sobre o Benfica no passado fim de semana. As defesas impressionantes do guardião, na fase de maior pressão encarnada, ajudaram os bracarenses a garantir os 3 pontos. Com uma estampa física notável, agilidade entre postes e segurança nas saídas, trata-se de um guarda-redes com boa margem de progressão. Se conseguir adaptar-se ao futebol europeu e der continuidade à sua evolução, rapidamente despertará a atenção de clubes maiores.
A JOGADA
Mentalidade vencedora
Fernando Santos assumiu o desejo de ganhar o Euro’2016. Muitos dirão que está a colocar uma fasquia demasiado elevada para o nível da equipa que tem entre mãos. Contudo, este é no meu entender um indicador muito positivo. O selecionador pretende incutir ambição e confiança no balneário da Seleção. Todos os jogos são para ganhar e garantindo uma cultura de vitória tudo se torna possível. Fazendo do coletivo uma arma e com Cristiano Ronaldo em forma, sem esquecer a enorme falange de apoio dos nossos emigrantes em França, ser campeão europeu é um sonho legítimo para Portugal.
A DÚVIDA
Bom arranque de Nuno
Quando foi anunciado como novo técnico do Valencia, Nuno Espírito Santo foi olhado de soslaio pelos adeptos espanhóis (num fenómeno idêntico ao de Lopetegui em Portugal). O português rapidamente calou a crítica e colocou a sua equipa nos lugares cimeiros da liga e a praticar bom futebol. O impacto de Nuno foi imediato: nesta altura, o clube tem mais 7 pontos do que na época anterior e está apenas a 2 pontos de distância da liderança da liga. Os sócios idolatram-no e até já se fala na renovação de contrato. Teremos candidato ao título espanhol?
