Dupla personalidade
É uma sensação estranha. Assistir aos jogos do FC Porto desta época é o mesmo que ver alguém com dupla personalidade. De uma jornada para outra a equipa alterna a sua capacidade exibicional entre o oito e o oitenta. Após a vitória na Luz, era pouco previsível que os portistas, com essa forte injeção de moral, perdessem pontos no jogo seguinte, ainda para mais em casa. A lentidão de processos que se viu contra a Académica não condiz com uma equipa que quer ser campeã.
Quando se aproxima uma partida dos dragões, uma questão paira na mente dos adeptos: “Que FC Porto se vai apresentar no próximo jogo?” A prestação da equipa, que tem oscilado entre o bom e o muito mau, é sempre uma incógnita. E depois da euforia da vitória sobre o Benfica, num jogo em que os portistas mostraram força e personalidade, eis que surge um dragão cinzento, passivo e tristonho. Esta dicotomia tem sido um filme recorrente ao longo do campeonato.
E neste jogo de espelhos, quase que diria esquizofrénico, é possível ver dois reflexos no perfil do dragão deste ano. De um lado está uma equipa portista pressionante, rápida, com muita posse de bola e golos, atingindo momentos de bom futebol. Contudo, no mesmo espelho, os relvados, também temos visto a imagem de um dragão deprimido, sem velocidade nas suas ações, com imensos passes errados e sem sentido de baliza.
Por várias vezes ouvimos o treinador do FC Porto falar em competência, ou na falta da mesma, para justificar vitórias e derrotas. Parece-me que, mais do que isso, a questão tem estado relacionada com o equilíbrio emocional da equipa, que nem sempre entra em campo com os índices de motivação no máximo. E quando isso acontece, lá surgem os “45 minutos oferecidos ao adversário”, com entradas a ritmo lento, sem remates para golo e a consequente obrigação de ter de correr atrás do prejuízo, mais com o coração do que com a cabeça.
Em função da sua matriz de jogo, se o futebol dos dragões não tiver velocidade, principalmente nas trocas de bola a meio campo, e não fazendo uma exploração constante das alas e colocação da bola no último terço do terreno, a vida dos adversários que surgem pelo caminho fica bem mais facilitada.
Por seu turno, alguns jogadores chave do FC Porto também não se apresentam na sua melhor forma. O defesa-central Rolando é o caso mais flagrante (nesta altura, Maicon e Otamendi parecem melhores soluções), Hulk tem sido irregular desde que regressou da lesão e a falta de recursos para refrescar o meio-campo (substituir Fernando é um dilema) também é um problema.
A ver vamos como conseguirá Vítor Pereira lidar com este FC Porto versão “Doutor Jekyll e Senhor Hyde”, sendo também verdade que, neste caso, a resposta principal terá de surgir dos jogadores e da forma como encaram os jogos desde o início. Certo é que os dragões têm o Benfica e o Braga no seu encalço e esta incerteza de resultados promete liga até ao fim.
Na semana passada dizia eu que a 1.ª Liga não tem, por agora, um favorito assumido. Com tantas surpresas, é imprevisível apontar o futuro campeão e muito disso passa pela falta de fiabilidade deste FC Porto de Vítor Pereira, que não tem tido, para já, a coesão necessária. Apesar do empate cedido (ou terá sido um ponto conquistado?) com a Académica, os dragões continuam líderes e, como diz o ditado, “candeia que vai à frente alumia duas vezes”.
