E o Gil é que é o mau da fita...
Os dias passam... o lamaçal aumenta. É assim o futebol português, com os "cromos" do costume cada vez mais enterrados numa rede de conluios, favores, tráfico de influências e negócios escuros. Surpreendentemente, os protagonistas continuam a "sacudir a água do capote". E, pelos vistos, a estratégia até funciona. Todos continuam nos seus postos, de sorriso aberto, lançando farpas aos outros, mas garantindo sempre ter agido no rigoroso cumprimento dos seus direitos, deveres e obrigações.
Já aqui escrevi que muitas das principais figuras do futebol luso deviam, pura e simplesmente, sair de cena. Nós, aqueles que gostamos do jogo, estamos cansados de tanta polémica, de conversa barata, de queixas, de argumentos disparatados, de contínuos "pontapés para a frente".
Como se não bastasse a "novela Mateus", nos últimos dias vieram a público mais excertos de escutas telefónicas relacionadas com o "Apito Dourado". De início era o Benfica que tinha sido prejudicado, depois o Sporting e agora entra em cena Luís Filipe Vieira, pelos vistos a rejeitar alguns árbitros e concordar com a nomeação de outros.
Tenho dificuldade em dizer, sucintamente e sem recorrer a um vocabulário mais popular, aquilo que sinto do momento. O futebol português tem-se transformado, ao longo das últimas décadas, numa competição satírico-desportiva. Porém, a vontade de rir já faz parte do passado. Agora, todos os que defendem que o futebol não passa de um jogo e que os melhores é que devem vencer, sentem-se defraudados e revoltados. Como será possível esta indústria continuar a cativar o interesse do povo quando quase tudo nos merece dúvidas? Quantos campeões ou vencedores de Taças conquistaram, legitimamente, os seus troféus? Sinceramente, não sei...
E a balbúrdia, com toda a certeza, não atinge apenas quem luta pelos lugares cimeiros. Entre tanto corropio de conversas obscuras, penso ser garantido que também os postos de acesso à participação nas competições europeias ou a luta pela manutenção no principal escalão (bem como as subidas nas divisões secundárias) devem ter merecido muitos telefonemas comprometedores.
Não faço ideia da forma como tudo isto vai acabar, mas a ter em conta as notícias de tantos arquivamentos, desconfio que o célebre "Apito Dourado" vai ter o mesmo fim que a confusão da Casa Pia: acabará por cair no esquecimento. E provavelmente sem ninguém a ser devidamente responsabilizado. Ou pelo menos alguém com peso mediático.
Portugal é, hoje em dia, um País em clara transformação. As leis parecem aplicar-se apenas aos simples cidadãos. Os outros, os "cromos", passeiam-se impávidos e serenos. Ninguém os importuna. E se o fazem é com toda a diplomacia, não vão os senhores ficar aborrecidos e, claro, mexer mais alguns "cordelinhos"...
Perante tudo isto sou forçado a dizer que a FIFA devia mesmo protagonizar uma revolução no nosso futebol. Se o Governo, a Federação e a Liga continuam a assobiar para o lado, então que venha alguém lá de fora e ponha um travão em toda esta palhaçada. Que seja Blatter e seus pares, por exemplo, a escolher os árbitros. Sim, porque se o líder da Liga tem poder para decidir quais os juízes em jogos organizados pela Federação, então a FIFA também deve poder dar uma mãozinha...
Curioso é observar que, para muita gente, o Gil Vicente é que está a colocar em causa a sobrevivência do futebol português. Errado! Os gilistas, mais do que terem garantido a permanência dentro do campo, não são acusados de terem negociado qualquer resultado. Eles apenas consideram ter razão num processo recheado de "rabos de palha". A fazer fé no que se tem lido e ouvido nas últimas horas... cada vez me convenço mais que os minhotos têm lugar na Liga. Já o mesmo não se aplica a outros clubes. E para quem não percebe meias palavras, adianto que não estou a pensar no Belenenses!
