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OPINIÃO

EDITORIAL: As dificuldades do Benfica

Um comunicado do Benfica publicado há quase uma semana a confirmar o insucesso das negociações com o Rosenborg sobre o avançado Rushfeldt remetia o entendimento dos adeptos e associados do clube para o futuro: “Os motivos que levaram o Sport Lisboa e Benfica a desistir da contratação deste jogador serão compreendidos pelos benfiquistas nos próximos dias”, adiantava a Direcção de Vale e Azevedo.

Ao mesmo tempo, o dirigente responsável pelo futebol benfiquista garantia que o clube “contratará a curto prazo um avançado”, revelando um desfasamento notório em relação ao treinador Jupp Heynckes. Por essa altura já o técnico alemão revelava sinais de melhor entendimento das reais dificuldades do clube, acabando, dias depois, por negar a necessidade do homem-golo que andara dois meses a reclamar com alguma veemência.

E, se em matéria de avançados o Benfica teve um defeso problemático, a questão dos guarda-redes não é menos preocupante e enigmática quanto aos métodos, soluções e prioridades do futebol encarnado. O homem que recebeu, simbolicamente, o testemunho de Michel Preud’homme no jogo de apresentação na Luz, o argentino Bossio, está num plano idêntico ao de Rushfeldt - impedimento de representar o Benfica -, com a ligeira diferença que o seu anterior clube não quer abdicar do negócio nem terá melhores propostas.

Desde que Vale e Azevedo é presidente do Benfica rara foi a contratação de jogador estrangeiro que não esteve envolvida em polémicas.

Os casos de Poborsky, Brian Deane e Luzhny foram de tal forma traumatizantes, que se pensava servirem de exemplo a nunca mais repetir. Para tanto, bastaria que o clube só avançasse para contratações quando estivesse na posse de recursos e garantias de sucesso.

A acusação velada de que tais inêxitos resultam da influência de terceiras pessoas, que dariam más informações sobre os dirigentes e o clube português, também é recorrente e voltou a ser ventilada entre as idas e vindas de Trondheim. Para que tal deixasse de soar a desculpa de mau pagador teria bastado a denúncia de uma situação concreta.

Mas nada disso se passou.

Passados mais de dois meses repletos do que o último comunicado do clube caracterizava de “habituais e inevitáveis artigos, reportagens e especulações sobre o nosso querido clube, as suas transações e actividades” o resultado é fácil de descrever: o Benfica não conseguiu colocar à disposição do seu treinador os jogadores que pretendia e entra na nova época com desprestígio agravado na sua imagem nacional e internacional.

Tendo acompanhando a par e passo os trabalhos dos dirigentes encarnados ao longo dos últimos meses, Record não pode deixar de lamentar o epílogo de tão atribuladas movimentações. Há que reconhecer que tal desfecho contraria profundamente as expectativas que essa cobertura não deixou de criar aos nossos leitores.

Todo o crédito foi concedido às operações, negociações e justificações, mas continua a faltar a explicação final. E não são apenas os benfiquistas que têm interesse em compreender os motivos de tal política!

Essas explicações constituem, agora, uma real e enorme dívida de Vale e Azevedo à opinião pública desportiva.

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