Elites do Sporting desarmam ou "fogem"?

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Elites do Sporting desarmam ou "fogem"?
Elites do Sporting desarmam ou "fogem"?

“A auditoria de gestão é algo que tem de ser feito. Quem cometeu actos ilícitos vai ter de se preocupar; quem não cometeu não tem com que se preocupar.” Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, in ‘Record’’

Bruno de Carvalho não pára de surpreender aqueles que, sentados faustosamente em cima de um leão emagrecido, fizeram os possíveis para replicar a ideia de estarmos perante um perigoso aventureirista. Há ainda quem pense que, mesmo arrumada a casa nos seus aspectos essenciais (definidos os termos e os “timings” da restruturação financeira ‘+’ a parte conceptual e funcional do futebol), chegará o tempo em que a máscara cairá ao novo presidente do Sporting. Não penso que seja assim. Bruno de Carvalho tinha tudo, ou quase tudo, contra ele – e é com indiscutível mérito pessoal que conseguiu “virar a página” a seu favor.

Não espanta esta asserção, porque a comunidade sportinguista, no que diz respeito às suas elites, sempre foi muito prolixa em sentenças e, entre mandatos com diferentes presidentes, ou por comodidade ou por falta de coragem, nunca imperou a consciência crítica. Aconteceu, nalguns casos, o contrário. Certas vozes minimamente críticas foram-se juntando à nomenclatura, pelo que o Sporting, no momento mais difícil da sua existência, teve não apenas muitos patrocinadores de uma crise tornada crónica, mas também muitos cúmplices.

Um dia, quando se fizer a história da viragem – se Bruno de Carvalho não se deslumbrar e mantiver a cadência forte e serena neste tempo de recuperação de um clube que, a manter-se a dinâmica dos últimos 15 anos, estaria condenado a uma minimal representação –, dir-se-á que foi a ala jovem dos leões, sobre a qual se ginasticou, loucamente, a epifania de Eduardo Barroso, a provocar a ruptura e, com ela, o aparecimento de um novo ciclo.

Não chegou a ser uma “revolução sanguinária” mas o Sporting conheceu, com Bruno de Carvalho, o seu 25 de Abril. As elites resistiram o mais que puderam (interessante como a imprensa mais conservadora e regimental apoiou a solução José Couceiro...), mas caíram perante a realidade: não era mais possível esconder ou disfarçar, mesmo reconhecendo nuances de comportamento entre presidentes, que o problema estava no regime, isto é, no denominador do erro magistral, consubstanciado na quase total razoabilidade colocada na gestão do futebol.

Bruno de Carvalho, que surgiu das bases do Sporting e possui, por isso, um entendimento “mais social” do clube, chega à presidência dos leões e deparou-se-lhe um problema vital: a mentalidade vigente em Alvalade. Uma mentalidade forjada em anos de facilitismo e de “deixa andar”.

Não foi certamente por acaso que, desde 1998/99, o Grupo Sporting acumulou resultados líquidos negativos em quase todas as épocas (2007, com Soares Franco, foi excepção).

Não foi também por acaso que se gerou um défice crónico de tesouraria, estimado em 20M€/ano.

Não foi ainda por acaso que o agravamento do passivo, em 12-13 anos, andou na ordem dos 230M€ e que os juros de financiamento atingiram, nesse período, 115M€.

Não foi igualmente por acaso que houve aumento gradual de fornecimentos e serviços externos.

O Sporting parece estar no bom caminho. Há uma “revolução cultural” em marcha, à qual não é estranha esta extraordinária medida promovida pelo próprio presidente dos leões, satisfeito com uma remuneração mensal indiscutivelmente baixa, mesmo considerando não haver rasto de nenhum presidente que tenha ficado mais pobre depois de passar pelo futebol ao mais alto nível... Até nisto, BdC se revela um grande jogador: não se consegue ser líder com aceitação sem mínimo de exemplo...

É neste enquadramento que Bruno de Carvalho vem dizer agora que, dando seguimento a uma promessa eleitoral, no sentido de concretizar a auditoria de gestão, só devem estar preocupados aqueles que eventualmente tenham praticado actos ilícitos.

Salvo melhor opinião, não creio que, na eventualidade de estarmos perante uma situação de gestão danosa, o Sporting possa vir a ser ressarcido. Nem creio que seja provável, no futebol português, alguém poder pagar um alto preço por actos criminosos, em tempo verdadeiramente útil. E, por isso, defendo que os órgãos sociais e os seus titulares deveriam ser responsabilizados, por força estatutária, sempre que, no respectivo arco de governação, as regras basilares da boa gestão (enquadradas no regime de fair play financeiro) não fossem cumpridas. Porque é muito difícil gerar boas heranças com um historial crónico de más heranças.

Bruno de Carvalho já ouviu elogios de ex-presidentes, o que não deixa de ser igualmente surpreendente. Estamos na fase em que as elites, vencidas, ou vão desarmar ou vão “fugir”. Nem que seja uma fuga para a frente...

A grande vantagem é que a história do Sporting vai ficar mais clara para todos e pode servir de exemplo para outros emblemas.

JARDIM DAS ESTRELAS

Sporting na Selecção ****

Olha-se para a Selecção Nacional que esteve ontem em Alvalade (Cristiano Ronaldo, Nani, Rui Patrício, Moutinho, Miguel Veloso, Varela, Custódio, Beto, André Martins e Cédric), o passado, o presente e o futuro, e o texto principal sobre o Sporting publicado aqui ao lado assume maior preponderância. É que um clube que produz tantos jogadores/“activos” deveria achar uma correspondência desportiva e financeira. Daí que a auditoria de gestão possa ser útil desse ponto de vista, porque não é normal um clube fazer o mais difícil e, depois, promover uma criminosa cultura de desperdício.

O CACTO

Promessas

Já houve um tempo em que as Selecções eram dominadas por este ou aquele clube português, em número de jogadores convocados. Agora não se pode falar de domínio de qualquer emblema nacional e, mais do que isso, nota-se a ausência de jogadores do Benfica e FC Porto. Em 23, André Almeida e Nélson Oliveira (emprestado); Varela e Josué constituem magro pecúlio. Mas se o FC Porto, esta época, virou-se claramente para o mercado nacional, o mesmo não se pode dizer do Benfica, que promete investir em jogadores portugueses, mas sem resultados práticos. Em Portugal, por causa da mentalidade vigente, é muito difícil extrair rendimento dos futebolistas nacionais. Mas há outras razões... que mereceriam discussão.

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