Entre favoritos e ilusões
Há algo fascinante nos Campeonatos do Mundo: a facilidade com que desmontam certezas. Durante quatro anos, discutem-se gerações, sistemas táticos, rankings, valor de mercado dos plantéis e estatísticas. Depois começa o Mundial e, de repente, tudo pode mudar em noventa minutos.
Espanha entra no duelo frente à Áustria com o estatuto de favorita. Seria estranho que assim não fosse. A seleção de Luis de la Fuente possui um dos plantéis mais completos do torneio, joga um futebol reconhecível, domina os jogos através da posse de bola e conta com uma geração que mistura juventude e experiência como poucas no panorama internacional.
Mas o futebol não distribui vitórias por currículo.
Portugal também parte como favorito frente à Croácia, embora talvez com menos margem do que muitos imaginam. Os croatas perderam algum brilho individual, mas mantêm algo ainda mais importante: cultura competitiva. Não é por acaso que foram finalistas em 2018 e terceiros classificados em 2022. Esta é uma seleção que aprendeu a competir quando os jogos pesam mais.
E se Espanha e Portugal ultrapassarem os respetivos obstáculos, o Mundial poderá oferecer um novo capítulo da rivalidade ibérica.
Mas antes de pensar nesse eventual confronto, tanto espanhóis como portugueses terão de fazer o seu trabalho na ronda anterior. E no futebol, pensar demasiado a longo prazo costuma ser perigoso. Os Campeonatos do Mundo estão repletos de favoritos eliminados precisamente quando já olhavam para o adversário seguinte.
Os últimos confrontos entre as duas seleções confirmam um equilíbrio quase absoluto, embora o momento emocional pertença atualmente a Portugal. A seleção orientada por Roberto Martínez conquistou recentemente a Liga das Nações, derrotando precisamente a Espanha na final, num encontro decidido apenas no desempate por grandes penalidades depois de um empate durante os 120 minutos. Mais uma vez, os detalhes fizeram a diferença.
Antes disso, a Espanha havia eliminado Portugal nas meias-finais da Liga das Nações de 2021 e, ao longo dos últimos anos, os jogos entre as duas seleções raramente apresentaram um vencedor claro. Empates, resultados mínimos e encontros resolvidos nos instantes finais tornaram-se uma constante numa rivalidade marcada pela igualdade competitiva e pelo enorme respeito mútuo.
Nenhuma das duas seleções conseguiu estabelecer uma superioridade consistente sobre a outra. E talvez seja precisamente isso que torna um eventual duelo mundialista ainda mais apaixonante.
A história não marca golos. Os títulos não defendem penáltis. O prestígio não evita erros defensivos. Um Mundial decide-se quase sempre por pequenos detalhes: uma bola parada, uma defesa improvável, um ressalto favorável ou um instante de inspiração.
Porque esta não é uma competição de memória. É uma competição de presente. E no presente, todos começam do zero.
