Escandalosa "Herculanopatia"
Na terminologia futebolística, “ganhar na secretaria” corresponde a uma expressão maldita. Na verdade, ninguém gosta de “ganhar na secretaria”, porque as vitórias devem ser conquistadas, em primeira análise, no campo de jogo. Contudo, o futebol é regulado por um conjunto de regras que todos devem seguir e respeitar e, quando isso não acontece, isto é, quando há atropelos aos regulamentos ou quando se ganha com batota em campo, não há outra forma de se perder “na secretaria” aquilo que se ganhou dentro das quatro linhas.
ATaça da Liga tem sido pasto para todo o tipo de barbaridades. Vem sendo tratada, desde o seu acidentado nascimento, como um aborto. Quase todos a maltratam, mas no fundo todos a querem nos respectivos museus. Acontece que, na edição deste ano, duas das três equipas habitualmente candidatas a ganhar todos os troféus em disputa no futebol português (FC Porto e Sporting), ficaram na mesma poule (na fase de grupos). E isso só ocorreu – numa competição formatada para beneficiar os “grandes”, por razões que se prendem com a fraca competitividade média da bola indígena e também por motivos de natureza comercial – porque o Sporting realizou, na época passada, um campeonato muito aquém das suas possibilidades, o pior de sempre. E depois de as duas equipas se terem encontrado em Alvalade e empatado a zero era perfeitamente verosímil o cenário de se achar um dos semifinalistas através do maior número de golos obtidos em toda a competição. Assim foi. Por isso, o cumprimento daquilo que está estipulado nos regulamentos (obrigação de começar os últimos jogos da fase e grupos à meia hora) assumia relevância muito especial.
OFC Porto não entendeu assim, talvez porque a “justiça desportiva” não tenha a força, o distanciamento e a independência suficientes para impor genericamente a ideia, para além da especificidade deste caso, de que ela existe e faz-se apresentar sempre que é necessário para se cumprirem os regulamentos aprovados pelos próprios clubes. Aliás, este não é um problema de entendimento do FC Porto. É um problema de entendimento de todos os clubes, que acham sempre ter razão quando nem sempre isso acontece. Cada clube quer impor as suas próprias leis, por um lado porque não reconhecem credibilidade ao edifício da “justiça desportiva”; em segundo lugar, porque acham que estão sempre em condições de contaminá-lo, com decisões que lhes sejam favoráveis. É uma pescadinha de rabo na boca e daqui não se sai. A menos que se aceite uma mudança regimental e organizacional, no sentido de tirar a Arbitragem e a Disciplina do edifício federativo. O investimento, que deveria ser impulsionado pelo poder político (o problema começa exactamente no poder político, porque não cultiva a distância e uma certa exigência nos momentos em que a autonomia do movimento associativo não funciona; pelo contrário, há deputados a alinhar, alegremente, no jogo falado “sobre bola”...), tem de ser na INDEPENDÊNCIA e não na cartelização da Arbitragem e da Disciplina.
Veja-se o que aconteceu na audiência disciplinar do Conselho de Disciplina, na qual “acusação” e “defesa” esgrimiram argumentos. Há alguma coisa que possa justificar o comportamento do presidente desse Conselho, Herculano Lima, quando decidiu fazer perguntas ao delegado da Liga (Fernando Araújo), no sentido da protecção dos interesses do FC Porto? Quando o presidente do Conselho de Disciplina diz que não se importa nada com o tempo do atraso, se foram dois ou mais minutos, e que estava convencido que o atraso não teve efeitos no resultado e o FC Porto não quis obter nenhuma vantagem desportiva, onde está o seu dever de isenção? Ele pode dizer que já gostou muito e agora já não gosta de futebol, mas é escandaloso, no âmbito das suas funções e competências, que tente condicionar o depoimento das testemunhas e, em plena audiência, denunciar a sua interpretação dos factos. Isto é grave. É grave para o futebol, mas também é grave no âmbito do Estado de Direito e da própria democracia. Se ainda resta alguma decência e vergonha ao país, alguém tem de fazer alguma coisa para este senhor se demitir. Não basta o Sporting, que é parte interessada neste processo. É claro que o Sporting não pode ficar quieto, sobretudo agora que vem protagonizando uma tentativa de mudança. Mas é preciso mais vozes para combaterem esta farsa em forma de “Herculanopatia”.
O CACTO
"Roubo"?
O Sp. Braga foi afastado da final da Taça da Liga, muito por força de uma arbitragem incompetente. Olegário Benquerença (OB) protagonizou um conjunto de erros que não são admissíveis num árbitro com o estatuto que lhe foi outorgado. OB é apenas um exemplo que prova o facto há muito denunciado segundo o qual há árbitros que, através de um sistema de classificações falso, injusto e opaco, chegam a posições sem correspondência no seu valor. Num ambiente transparente e com outras regras, o que deveria acontecer depois desta péssima arbitragem, a lesar o Sp. Braga e o futebol?
1 - O CA deveria suspender o árbitro por um número de jogos apreciável;
2 - O CA deveria tornar pública a nota do observador.
Seria a única forma de credibilizar a arbitragem e o futebol. Ao invés, com este sistema, o que vai acontecer?
1 - OB deixará de dirigir jogos do Sp. Braga.
2 - OB continuará a dirigir outros jogos, porventura depois de uma ou duas semanas de “descanso activo”.
3 - A nota do observador levará cerca de uma semana a ser conhecida.
4 - António Salvador (que falou em roubo, sem aspas) será castigado, mas o castigo levará algum tempo a ser conhecido.
É esta mentira que Vítor Pereira tem ajudado a construir. Alguém pode acreditar neste futebol?
