Espanha, favorita como tantas outras
Durante décadas, Espanha foi a seleção das oportunidades perdidas. Um país produtor de gerações extraordinárias de jogadores, mas incapaz de transformar o seu talento em títulos mundiais. Surgia sempre um obstáculo, um detalhe ou uma desculpa.
México 1986, Estados Unidos 1994 ou Coreia/Japão 2002 fazem parte dessa memória coletiva e das minhas recordações de infância. Espanha jogava bem e entusiasmava, mas regressava sempre a casa demasiado cedo. O problema nunca foi a qualidade técnica. Faltava algo muito mais difícil de explicar: a convicção íntima de que podia conquistar o Mundo. Existia, além disso, uma barreira tão psicológica quanto real, simbolizada durante anos pelos malditos quartos-de-final.
Essa mentalidade começou a mudar em 22 de junho de 2008. Nos quartos-de-final desse Euro, Espanha derrotou a Itália na marcação das grandes penalidades. Para muitos, foi apenas uma vitória. Para o futebol espanhol, representou uma autêntica revolução cultural.
Ao eliminar uma das seleções mais competitivas do planeta, Espanha libertou-se dos seus fantasmas. A partir daí, os jogadores deixaram de entrar em campo admirando os adversários e começaram a acreditar, realmente, que podiam vencer qualquer seleção.
Dois anos depois, em Joanesburgo, Iniesta marcou aos 116 minutos da final frente à Holanda e mudou para sempre a história do futebol espanhol. No entanto, esse Mundial também demonstrou uma verdade incontestável: os Campeonatos do Mundo decidem-se nos detalhes.
A defesa de Casillas perante Robben, um ressalto favorável, uma bola ao poste ou um instante de inspiração individual podem definir o destino de uma geração inteira. A história dos Mundiais está repleta desses momentos: o golo de Götze em 2014, a genialidade de Zidane em 1998 ou a consagração de Messi no Qatar.
Hoje, Espanha possui algo que lhe faltou durante décadas: a certeza de que pode voltar a ser campeã mundial. E, no futebol, talvez esse seja o detalhe mais importante de todos. Porque favoritas há muitas, mas os Mundiais acabam, quase sempre, por ser decididos por esses pequenos detalhes que separam os campeões dos restantes.
