Este miúdo é um craque
1. Ele é a enciclopédia da função que desempenha, o fenómeno precoce que inverte a lógica no território onde tudo se decide e os valores de experiência, maturidade e liderança ditam quase todas as leis. Ao contrário de outros, a quem basta gerir a bênção da Natureza para seguir o caminho da glória, Custódio é um produto do trabalho, da inteligência, do estudo e da interpretação táctica do jogo.
Nunca foi nem será o mais talentoso das equipas em que actua, mas em qualquer delas está condenado a exercer papel preponderante na sua estabilidade e funcionamento. Apesar da idade, assume responsabilidades tremendas no equilíbrio estrutural que oferece ao colectivo e é simplesmente fantástico pela precisão com que executa cada uma das tarefas que lhe cabem.
2. Custódio é intuitivo no modo como antecipa movimentos e intercepta linhas de passe; é perfeito na análise do que sucede nas suas costas (especialista na segunda marcação) e implacável nas bolas divididas (sabe colocar o corpo e joga bem de cabeça); é solidário no apoio ao portador da bola e atrevido no remate à baliza (prova de que possui argumentos ainda não totalmente explorados na acção ofensiva); é esclarecido a dobrar o companheiro que sobe e toma decisões irrepreensíveis nos momentos de desarrumação na casa (sabe sempre onde ficar, como agir e com quem se preocupar).
Quando a sua presença for mais constante e o seu jogo mais diversificado, falaremos não de um titular surpresa do Sporting 2003/04 mas de um candidato a internacional A.
3. Sendo um jogador de fácil inserção na comunidade, precisa ainda de confiança e estatuto para lhe dar o estilo; adapta-se às circunstâncias mas não determina as regras; dá sentido ao talento alheio mas não traça o rumo do barco.
Seja como for, a gestão territorial brilhante já o transformou na trave mestra do poderoso meio-campo leonino; aliás, e tal como ficou demonstrado no último clássico, a exuberância deste Sporting ambicioso e ganhador está no losango da intermediária, no qual Custódio é o factor que une e multiplica a classe de Pedro Barbosa, o génio de João Pinto e a dinâmica de Rochemback - foi o próprio Mourinho a reconhecê-lo, quando optou por mais presença no meio (Pedro Mendes titular) em detrimento de pressão na direita (Sérgio Conceição no banco).
4. Figura numa zona do campo em que os critérios de avaliação não correspondem aos padrões estéticos dos grandes artistas; analisado levianamente como jogador obscuro, que utiliza vassoura para limpar e pistola para meter medo, Custódio é um soberbo intérprete da causa colectiva, cujo talento é dar nome próprio a conceitos globais como organização, equilíbrio e segurança.
À custa de convicções próprias e do enquadramento que Fernando Santos lhe deu, superou obstáculos até se tornar referência da SuperLiga. Pela forma como abordou a oportunidade e resistiu à dúvida; pela excelência de um jogo para o qual ainda não definiu limites e pela influência esmagadora que exerce na equipa, concentra traços de uma grandeza indiscutível: este miúdo é um craque.
E, agora, ou entra na história do Sporting ou acrescenta o nome à lista dos negócios milionários.
Zidane e o trono vazio desde Maradona
Jorge Valdano definiu-o ontem, em entrevista ao jornal espanhol "As", como "a máxima expressão estética de um século de futebol", a síntese perfeita entre "a harmonia dos jogadores húngaros, a artimanha dos argentinos e a fantasia dos brasileiros".
Zinedine Zidane é um jogador melhorado pelo tempo e para quem há muito deixaram de existir limites de crescimento. É a perfeição, a regularidade, a magia e a eficácia a caminho do trono vazio desde os tempos em que Maradona o deixou.
PASSE CURTO
A discrição de Miguel
No processo de adaptação ao lugar de defesa- -direito, Miguel passou da exuberância à discrição. Deixou-se levar, inicialmente, pela imagem de uma posição vulgarizada pelos treinadores mas está agora a aprender as suas especificidades. Não tem sido um jogador tão brilhante e decisivo, mas é um lateral-direito cada vez mais consistente.
Com água na boca
Paulo Sérgio, o extremo que o Sporting emprestou à Académica, assinou momentos espectaculares na deslocação à Luz. Tem drible e domina os truques de travagem, aceleração e mudança de velocidade. Deixou-nos a todos com água na boca.
Abonos de família
Júlio César (9 golos), Rodolfo Lima (8) e Zé Manuel (7) são os fenómenos goleadores dos aflitos Est. Amadora, Alverca e Paços de Ferreira. Abonos de família que confirmam a dispersão de qualidade existente na SuperLiga.
A importância da estatística
O ar triste não combina com o talento de um resistente orientado pela vontade de salvar a carreira. Sokota tem agora motivos para sorrir: competindo ganha ritmo e agilidade; jogando pode dar satisfações à estatística implacável para qualquer ponta-de-lança - e sete golos são um bom ponto de partida para o resto da época.
