Este Romário cheira a suor
1. Quando encerrou o ciclo da euforia e retomou a vida normal da esperança renovada; no momento de se habituar a outras caras e se entregar ao tumulto das novas ideias, a águia foi precisa na avaliação do que lhe faltava para continuar em estado de graça: qualidade individual que lhe permitisse repetir a glória interna e atacar a Liga dos Campeões. Passado o fragor de um título conquistado com pragmatismo e confirmada a grandeza posta em causa desde 1994, o Benfica regressou à terra impulsionado por ventos de mudança na sua proposta futebolística. A um mestre do “catenaccio” (Trapattoni) sucedeu Ronald Koeman, discípulo dilecto de Johan Cruijff, o revolucionário do jogo ofensivo, para quem as vitórias só fazem sentido se cumprirem a obrigação moral de respeitar plateias ávidas de espectáculo e bom futebol.
2. O diagnóstico feito pelo holandês não revelou premonições catastróficas. Limitou-se a confirmar o senso comum do número 10 que não tinha (Nuno Assis deixou de ser primeira opção) e da imperiosa necessidade em contratar um avançado de referência para potenciar a abrangência de Nuno Gomes. Definiu o imaginário geral que a busca estaria orientada pelo objectivo de descobrir um ponta-de-lança alto, forte, eficaz, apto a assumir sozinho confrontos directos em território inimigo. Com passado goleador pouco exuberante (29 golos em três épocas na Série A italiana) e compleição física mais próxima do peso mosca (168 centímetros para 64 quilos), Miccoli constituiu desilusão antes do tempo.
3. Ligado à Juventus, com passagem pela “squadra azzurra”; apresentado por opiniões credíveis como o “Romário de Salento”, que tem a coragem, neste tempo de repressão e seguidismo miserável, de tatuar a imagem de Che Guevara na perna direita, Miccoli não pode ser um futebolista qualquer. À segunda aparição como jogador do Benfica, frente ao Lille, abriu fogo contra a desconfiança e empunhou, com convicção arrasadora, a bandeira de luta, compromisso e qualidade acima da média – triunfa por insistência, explosão, temperamento, versatilidade e pelo dom raro de dominar as mais diversas funções do espaço atacante. A sua presença em campo é uma espécie de música de fundo nos alto-falantes da equipa, que inspira, tranquiliza, une, desperta e multiplica a produção colectiva.
4. Miccoli comove por dedicação, emociona pela qualidade de cada intervenção no jogo e ameaça perpetuar-se no coração dos adeptos, já conquistados pelo perfil eloquente de soldado de elite – Jorge Valdano chamar-lhe-ia “gladiador em miniatura”. Numa equipa que procura aperfeiçoar rotinas ofensivas e depende em excesso das iniciativas individuais, a técnica e a cultura táctica reveladas pelo italiano denunciam-no como avançado precioso. Ao contrário do seu inspirador brasileiro, o “baixinho” genial que chegou ao topo do Mundo com as mãos nos bolsos, de cigarro ao canto da boca e uma cadeira para descansar nos tempos mortos (no fim já levava um divã), Miccoli prefere não depender dos outros para ser feliz. É um Romário que cheira a suor, tem muito menos talento e golo, mas está condenado a ser uma figura enorme da I Liga.
Fogo aberto contra a dúvida
A presença de Miccoli em campo é uma espécie de música de fundo nos alto-falantes da equipa, que inspira, tranquiliza, une, desperta e multiplica a produção ofensiva
Vendedores de banha da cobra
Chegou a Madrid com a altivez de um Nobel da ciência, dono de segredo único: sabia como ganhar em sete minutos – ganhou, mas explicou depois que os milagres eram responsabilidade da mãe de santo com quem trabalha. Já esta época procurou revolucionar o jogo adaptando moderna tecnologia para estar em contacto permanente com Raul (havia de ser bonito) e, entre uma coisa e outra, criou as condições para a saída de Figo (cá para mim cumpriu ordens superiores). Já ninguém acredita nele. É o destino dos vendedores de banha da cobra.
O golo de Nélson ao Nacional
No Mundial de 1970, o guarda-redes Gordon Banks assinou uma das mais fabulosas intervenções da história do futebol. Pelé considerou então que o rival britânico fizera o impossível na sequência da cabeçada certeira: “Defendeu um golo.” Na Madeira, Nélson recuperou o conceito do antepassado inglês e assinou momento sublime ao defender o tiro de André Pinto. Foi como se tivesse marcado um golo pelo Sporting.
A banalidade de ganhar
Ao fim de quatro jornadas na I Liga e da estreia na UEFA, o Sp. Braga ainda não sofreu golos. Numa equipa que teve mudanças violentas do meio-campo para a frente, os bons resultados surgem como coisas banais. Com cinco jogos oficiais, os minhotos mostraram a coesão defensiva do costume e confirmaram um líder como esteio absoluto: Nunes, um dos melhores centrais portugueses do momento.
Como se fosse um extremo
César Peixoto está em pleno processo de adaptação a novas funções – uma reedição do que sucedeu com Miguel. Emblema de um treinador ousado, para quem os defesas também servem como iniciadores do ataque, o esquerdino tem dado resposta interessante nos primeiros passos da nova etapa, apesar de manter no rosto a ansiedade própria de um artista e de ainda cometer imprudências que podem sair caro. A principal das quais cair em excesso em zonas recuadas. Como se fosse um extremo que já não é.
