Estranha liberdade portuguesa
Sou, sempre fui e tenho a certeza que jamais deixarei de ser defensor dos valores que estiveram na origem do 25 de Abril de 1974. Mandar às malvas uma ditadura que castrava a evolução, a todos os níveis, da sociedade foi essencial para o País andar para a frente. Ainda assim, admito, dava jeito que, mais de três décadas depois da Revolução, Portugal estivesse melhor. Tentar perceber o que tem impedido um salto mais significativo na qualidade de vida de todos nós é assunto que merece dicusssão mais aprofundada. Adiante...
Vem tudo isto a propósito da inacreditável proibição de que foram alvo cerca de 100 adeptos do FC Porto que, imagine-se, tiveram a "ousada" ideia de se deslocar a Lisboa para apoiar o clube do seu coração numa importante partida referente à final do "playoff" do Nacional de hóquei em patins.
Quando ouvi a notícia nem queria acreditar. O autocarro alugado pelos "Super Dragões" foi barrado pelas autoridades em Alverca. Explicaram os polícias que a segurança dos portistas não podia ser garantida no Pavilhão da Luz.
Sempre pensei que qualquer português, independentemente de ser do Porto ou de Lisboa, adepto dos dragões ou das águias, podia deslocar-se livremente pelo País e assistir, desde que munido do respectivo ingresso, a todos os espectáculos desportivos ou de outra índole. Pelos vistos, estava enganado!
Sei que os duelos entre Benfica e FC Porto, nos últimos tempos, têm sido marcados por algumas cenas de violência, mas daí a proibir que um cidadão em plena posse dos seus direitos se desloque a onde quer que seja é impensável num País que se diz de direito.
Mas, para além da questão essencial, existem outras que não entendo:
- Se a Polícia tinha intenções de impedir a viagem dos "Super Dragões", não devia ter acabado com a deslocação logo no Porto? Porquê a barragem só em Alverca? Se calhar podiam tê-los deixado chegar à Segunda Circular...
- Se houve disponibilidade para colocar tantos agentes da autoridade em Alverca, de forma a assegurar o "bloqueio", não era possível utilizar essa mesma força policial para garantir a segurança dos adeptos portistas na Luz? Que se saiba, por muita rivalidade que exista, o recinto dos encarnados não é propriamente num bairro de Bagdad...
- Quem vai pagar o aluguer do autocarro e os bilhetes que os adeptos "barrados" garantiram ter em sua posse?
- Segundo os adeptos portistas, a Polícia explicou-lhes que fora o Benfica a comunicar a proibição. A ser assim, pode concluir-se que os clubes têm mais poder que as autoridades?
Enfim, um "filme" verdadeiramente ridículo, cujas "cenas" decorreram precisamente a 25 de Abril. Há com cada ironia...
