Estruturar para Crescer: o desafio estratégico que o Benfica continua a adiar

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O Benfica vive frequentemente absorvido pelas urgências do presente. O debate público concentra-se nos treinadores, nos jogadores, nos resultados de cada jornada, nas arbitragens ou nas polémicas do momento. Tudo temas legítimos. Mas os grandes clubes distinguem-se precisamente pela capacidade de olharem para além do próximo jogo e de prepararem, com antecedência, as próximas décadas. O Benfica não pode continuar a ser gerido domingo a domingo ao sabor dos resultados da sua equipa de futebol.

Se o objetivo estratégico é afirmar o Benfica como presença regular na elite europeia, então o desafio principal já não é apenas desportivo. É estrutural, organizacional e empresarial.

O Benfica construiu, ao longo das últimas décadas, uma das maiores marcas do futebol europeu, criou uma academia de referência mundial, modernizou infraestruturas, internacionalizou a sua imagem e consolidou uma dimensão social sem paralelo em Portugal. Contudo, permanece por fazer uma reflexão profunda sobre a arquitetura societária e financeira que deverá sustentar o crescimento futuro.

A verdade é que um clube que aspira competir de forma estável com os grandes emblemas europeus não pode limitar-se a pensar como um clube de futebol. Tem de pensar como uma organização global.

Uma das prioridades estratégicas deveria, por isso, ser a requalificação da estrutura acionista da Benfica SAD.

A dispersão atual do capital pode ter servido determinados objetivos em fases anteriores, mas o contexto competitivo exige hoje uma abordagem diferente. O Benfica deve estudar a possibilidade de recomprar parte das participações e ações dispersas em mercado, reforçando a sua capacidade de influência e reorganizando a estrutura de capital em função de uma visão estratégica de longo prazo.

Essa operação não teria como objetivo encontrar financiadores para resolver problemas conjunturais. Pelo contrário. O objetivo deveria ser identificar um número reduzido de investidores institucionais que acrescentassem estabilidade, credibilidade e capacidade de crescimento. Parceiros com horizonte de longo prazo, alinhados com a identidade do clube, respeitadores da sua história e comprometidos com a preservação do controlo estratégico associativo.

A questão fundamental não é quem coloca o capital, mas sim em que condições o capital entra e para que projeto contribui.

Ao mesmo tempo, importa compreender que o controlo efetivo de uma instituição não depende exclusivamente da percentagem de ações detidas. Depende da qualidade dos mecanismos de governance, da estabilidade dos centros de decisão e da existência de uma visão estratégica clara. O Benfica deve garantir que qualquer evolução da estrutura acionista fortalece simultaneamente a proteção da identidade do clube, a capacidade de decisão dos seus órgãos sociais e a estabilidade das opções de longo prazo.

Mas a discussão não se deve limitar à Benfica SAD.

Existe uma segunda oportunidade estratégica igualmente relevante. A simplificação do universo empresarial do Grupo Benfica.

Ao longo dos anos foram sendo criadas diversas entidades, sociedades e estruturas que responderam a necessidades específicas de cada momento. Muitas fizeram sentido quando nasceram. Contudo, a acumulação histórica tende sempre a gerar sobreposição de competências, maior complexidade administrativa, custos de contexto mais elevados e menor transparência interna.

Uma reorganização do grupo permitiria racionalizar estruturas, eliminar redundâncias e criar uma arquitetura empresarial mais simples, mais eficiente e mais facilmente escrutinável. Menos entidades significam frequentemente maior clareza na gestão, maior agilidade operacional e melhor capacidade de controlo.

Essa reorganização deveria ainda aproveitar a oportunidade para corrigir um problema típico das organizações complexas. O desalinhamento entre quem gera valor e quem contabiliza esse valor.

Num grupo empresarial moderno, a entidade responsável pela criação da receita deve ser, tendencialmente, a entidade que a reconhece contabilisticamente. Quando esse princípio não é seguido, surgem distorções na análise económica, dificuldades na avaliação dos ativos e perda de eficiência na gestão financeira.

O Benfica beneficiaria de uma revisão global dos fluxos financeiros internos, assegurando que receitas, custos, ativos e responsabilidades estão alinhados com a realidade operacional de cada entidade. O resultado seria uma organização mais transparente, mais eficiente, mais facilmente financiável e mais preparada para responder às exigências do mercado internacional.

Estruturar para crescer exige também reavaliar a relação financeira entre o Clube e a SAD, nomeadamente através da regularização da dívida existente e da realização de uma avaliação independente do Estádio da Luz, garantindo que o balanço reflete adequadamente o verdadeiro valor dos ativos do Benfica.

No fundo, esta discussão não é financeira. É competitiva.

Os clubes que hoje dominam o futebol europeu não são apenas aqueles que contratam melhores jogadores ou dispõem de maiores orçamentos. São os que possuem estruturas organizacionais mais robustas, modelos de governance mais sofisticados, mecanismos de decisão mais eficazes e arquiteturas empresariais desenhadas para crescer.

O Benfica passou as últimas duas décadas a profissionalizar a sua atividade desportiva. É tempo de profissionalizar a arquitetura que suporta essa atividade.

A verdadeira questão é saber se o Benfica está a construir uma organização preparada para competir, nas próximas décadas, com os maiores clubes da Europa. Porque a elite europeia não se alcança apenas através do talento desportivo. Conquista-se, sobretudo, através da qualidade das estruturas que sustentam esse talento.

E talvez seja precisamente aí que reside uma das prioridades mais importantes que o Benfica continua a adiar.

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