"Eu e mais 10" na pré-época

Adicione como fonte preferencial no Google
"Eu e mais 10" na pré-época
"Eu e mais 10" na pré-época

A maioria das equipas já levam várias semanas de pré-temporada e qualquer balneário profissional nesta altura vive os dois lados da moeda. Para os craques de cada equipa e todos aqueles que sabem que vão ser titulares é o paraíso. Já para a outra metade do grupo, os que estão a lutar por um lugar para ficarem no plantel, é um pesadelo.

Pessoalmente, ao longo da minha carreira profissional vivi as duas experiências. Tive o privilégio de jogar em grandes equipas e de ganhar a pulso o estatuto de imprescindível. No idioma futebolístico significa "eu e mais dez". É uma maravilha. Para qualquer jogador que é intocável, para o treinador e também para os seus os colegas, a pré-época é um dos momentos em que mais desfrutas dentro de um campo de futebol. Sempre disse que os amigáveis de Julho e Agosto (antes de começarem os jogos oficiais) eram como estar no recreio da escola ou fazer uma peladinha nas ruas do Montijo com os meus amigos de infância. Os grandes clubes têm sempre pressão e obrigação de ganhar, mas sem dúvida que durante o verão as críticas não são tão ferozes no caso de uma derrota ou de fazer um mau jogo. Era o momento em que mais me divertia dentro das quatro linhas e sabia que corresse bem ou mal, no primeiro jogo a sério seria sempre eu e mais dez.

No outro lado da moeda tive dois momentos difíceis. O primeiro foi horrível. Nunca me esquecerei quando John Toshack me disse que não havia espaço para mim no plantel do Sporting e que o melhor seria ser emprestado. Tinha 18 anos e sem dúvida alguma que aquele momento foi o pior da minha infância e adolescência. Quem me conhece bem sabe que sempre tive um carácter alegre e brincalhão mas o golpe foi tão forte que eu andava de rastos em termos psicológicos. Nos dias seguintes estava tão triste como nunca estive. Nem parecia a mesma pessoa. Depois de uma época como sénior no Sporting e depois de ser o internacional mais jovem de sempre pela Seleção A nunca esperei aquela péssima notícia. Era o menino de ouro dos adeptos leoninos, não era possível que estivesse a ouvir da boca do galês aquelas palavras. Era o meu primeiro grande pesadelo como profissional de futebol. Pesadelo que só acabou quando assinei pelo FC Porto.

O segundo tinha já 29 anos. Estava praticamente na curva descendente da minha carreira, tinha dois desafios quase impossíveis de ultrapassar mas nunca quis virar a cara à luta. Tinha de tentar! O primeiro foi a surpresa de quando o presidente da Reggiana me disse que o AC Milan queria que fosse à experiência com eles numa digressão pela Ásia. Já não era menino para experiências mas por outro lado tinha sido operado duas vezes ao joelho e era normal que os rossoneri quisessem ver como estava fisicamente. Dos cinco jogos que fizemos na China e Japão, em quatro fui considerado o melhor em campo. Assinei contrato. O segundo desafio era que só podiam ser inscritos cinco estrangeiros naquela altura e apenas quatro estariam na convocatória. Podiam jogar três de início e estar outro no banco, que só poderia entrar se saísse um dos outros. Éramos sete. Os outros seis eram geniais: Marco van Basten, Boban, Savicevic, Marcel Desailly, George Weah e um menino chamado Patrick Vieira. Acabei por fazer uma pré-época espetacular. Acabei por ganhar o segundo desafio e naquele ano ganhei o Scudetto mas foi o único verão em toda a minha carreira em que não me diverti. À parte da pressão e do nervosismo de não saber onde estaria a jogar no dia 1 de setembro, ter que competir com os meus próprios companheiros por um lugar no plantel era uma situação super desagradável.

Exemplos como os meus são milhares e uma coisa que nunca mudará são os balneários na pré-época. As duas faces da moedas existiram, existem e sempre existirão. Por exemplo, hoje em Portugal, Gaitán, Brahimi ou Rui Patrício sabem que são eles e mais dez. Na outra face da moeda, Capel, Nélson Oliveira ou Ádrian López não sabem se irão ter espaço no plantel, enquanto outros como o Labyad já estão no momento de tristeza e depressão por já estarem fora das opções.

A pré época é isto: paraíso para os imprescindíveis e pesadelo para todos os outros.

GRANDE CALDEIRADA

Ronaldo e os portugueses

Num treino do Real Madrid na Austrália houve a primeira ameaça de uma grande caldeirada. Numa peladinha que estava a ser dirigida pelo novo treinador Rafa Benítez, Cristiano Ronaldo acabou por chatear-se ao afirmar que o espanhol apenas apitava contra os portugueses. Para o Cristiano reagir daquela maneira é porque foram várias as vezes. A frase é muito forte e envolve vários jogadores que têm muito peso dentro do balneário. Se fosse amigo do Rafa dir-lhe-ia: "Se continuas nesta linha vais obrigar os meus compatriotas a fazerem-te a cama."

NÓS LÁ FORA

Genial Ivan Cavaleiro

Depois de chegar ver e vencer, como disse nestas linhas a semana passada, tenho que elogiar novamente o menino Ivan Cavaleiro. Nos três jogos seguintes fez mais dois golos. Um frente ao PSV e outro com o Mainz fazem do português a nova sensação da equipa de Leonardo Jardim. Após uma boa época no Deportivo e um Europeu sub-21 de grande nível, este início genial vai sem dúvida dar-lhe muita confiança para que possa fazer uma época de sonho!

DO MEU ÁLBUM

Magic Johnson e Larry Bird

Neste momento, os três grandes portugueses fazem as suas pré-épocas fora de Portugal e isto recorda-me a minha primeira digressão (que na altura se fazia no final do campeonato). Tinha 17 anos, era jogador do Sporting e fomos aos Estados Unidos, onde tudo foi uma loucura com os emigrantes. Ainda assim, a minha maior memória desse tempo é que foi a primeira vez que ouvi falar em Magic Johnson e Larry Bird, os deuses da NBA naquela altura. Desde então a NBA ganhou mais um fã que até hoje é louco por este magnífico desporto.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade