FC Porto acrítico
Pinto da Costa nunca teve oposição no FC Porto e isso é um mérito que lhe deve ser creditado, porque soube reunir-se de pessoas que lhe atapetaram o caminho ao longo dos tempos e afastaram pequenos focos de contestação. Algumas das figuras que vemos hoje nas fotos ao lado do presidente portista são as mesmas que víamos há umas décadas atrás – com mais rugas e cabelos brancos. A “estrutura do FC Porto” é isso mesmo: consenso e silêncio à volta do líder, que age e reage quando quer, como quer e da forma como melhor lhe aprouver. Aos 74 anos de idade, 30 dos quais na presidência do clube azul e branco (a completar no próximo mês), conseguiu esse “milagre” de secar a crítica interna, mesmo quando os erros se acumulam, como é óbvio que vem acontecendo ao longo da presente época desportiva.
Um clube como o FC Porto, que se colocou na rota do êxito, nacional e internacionalmente, actual campeão nacional e vencedor da Liga Europa, já atirou fora esta época a Supertaça Europeia (sem dano, uma vez que o adversário foi o Barcelona), a Taça de Portugal (perante a Académica), a Liga dos Campeões (aos pés do Zenit), a Liga Europa (face ao Manchester City) e agora a Taça da Liga (frente ao Benfica). No meio dessas perdas – com o campeonato sob mira –, o presidente Pinto da Costa continua a fazer valer as suas consideradas “espertas” ironias e um diagnóstico – como dizer? – “coreano”: nada está mal internamente; o problema está nas arbitragens, no presidente da Liga e em certos sectores da comunicação social, aqueles que ainda estão fora do seu controlo.
Por isso, André Villas-Boas continua sem sucessor no FC Porto. Vítor Pereira foi colocado naquele lugar como se coloca um bibelô na prateleira da estante e se muda de posição sempre que apetece. O presidente faz de treinador (mandou o recado, publicamente, de que a Taça da Liga não era para levar a sério), humilha-o sem o mais pequeno problema (Dragões de Ouro), porque o que interessa é mesmo provar que a estrutura funciona, sejam quais forem as condições de “pressão e temperatura”...
O acriticismo no FC Porto tem muito a ver com o facto de Pinto da Costa nunca ter consentido, ao longo dos tempos, que jogadores e treinadores fossem mais protagonistas do que ele. Arranjou forma de os calar: com homenagens, bons tratos depois de maus tratos, colocações profissionais, elogios cirúrgicos (temporalmente) e outras fórmulas de captação. Os potenciais dissidentes deixaram-se todos “cozinhar” em “lume brando”. Notável!
Personalidades como Pinto da Costa não criam condições para a sucessão. Querem eternizar-se. Vale a máxima segundo a qual “o FC Porto é Pinto da Costa e Pinto da Costa é o FC Porto”. E tudo se vai esbatendo, e relativizando, depois de concretizada a maior e mais importante conquista: a quebra da hegemonia dos “clubes de Lisboa”, designadamente a do Benfica.
Não há massa crítica dentro e em redor do FC Porto. Só por essa razão é possível ter passado uma época inteira a sustentar os erros do “adjunto de Villas-Boas”; ter levado meia temporada para se achar um razoável substituto para Falcão; e ver a equipa muitas vezes amargurada a dar fraca conta do recado.
