Fernando Mendes: um caso de polícia
Embora o povo tenha por costume dizer "mais vale tarde do que nunca", confesso que, em algumas situações, não defendo o adágio popular. Compreendo o arrependimento que todos sentimos quando, em consciência, verificamos que errámos em determinado momento, mas admito que me fazem confusão as pessoas que, durante largos períodos, convivem serenamente com a ilegalidade, a batotice, e só passados anos e anos é que consideram ser útil denunciar o que sabem ser comportamentos irregulares.
Vem tudo isto a propósito do lançamento do livro "Jogo Sujo" do antigo futebolista Fernando Mendes. Em traços gerais (não li a obra na sua totalidade porque ainda não está à venda nas livrarias), o ex-lateral esquerdo faz uma viagem pela respectiva carreira e denuncia o uso sistemático de "doping" em alguns dos clubes por onde passou. Segundo a explicação do próprio foram retirados do livro os nomes de vários protagonistas de modo a evitar alguma agitação normal nestes casos. Porém, basta ler algumas passagens (foi o que fiz) para perceber que Mendes visa, pelo menos, dois emblemas. As dicas que nos oferece são fáceis de decifrar. Por exemplo: tente descobrir quantas vezes é que o jogador defrontou, nas competições europeias, equipas que possuíam no plantel três campeões do Mundo ou, noutra situação, quantos particulares disputou em Portugal (sendo titular e alinhando na segunda parte) ao longo das suas 11 internacionalizações, já que numa delas confessa que abandonou, ao intervalo, o balneário da Selecção para, com o auxílio de alguns elementos clínicos do seu clube do momento, ganhar "ânimo" para a segunda metade...
Não coloco em causa a veracidade de nada do que surge no livro. Aliás, duvido imenso é que o relato de Mendes conte verdadeiramente tudo o que testemunhou no mundo do futebol. Tenho a certeza que sabe mais, muito mais. Sobre o "doping" e sobre outras coisas. Estamos a falar de um dos futebolistas com percurso mais completo entre as principais equipas nacionais. Lidou de perto com muitos jogadores, treinadores, dirigentes, médicos e massagistas. Dificilmente não conseguiria escrever um livro maior. Ou diferente, abordando mais experiências colectivas ou individuais. Mas, quem sabe, talvez isso tenha ficado para uma segunda incursão nas lides da escrita...
Para alguns, a começar pelo próprio, Mendes está a fazer um grande favor ao futebol, denunciando que nem "tudo é bonito" na modalidade. Discordo desta conclusão, admitindo que, efectivamente, o desporto-rei, em Portugal e em qualquer ponto do Mundo, está longe de ser um mar de rosas. Mas, sinceramente, há alguma actividade que envolva tanto dinheiro e esteja imune a jogadas de bastidores? Para mim, Mendes, mais do que tudo, está é a cuspir no prato onde comeu, parecendo querer vingar-se de alguém.
Ao confessar tudo isto mas ao admitir que, provavelmente, voltaria a repetir, Mendes nem sequer cumpre os requisitos do tradicional "arrependido". Faz lembrar os ciclistas que, um dia, acordam e resolvem assumir que se doparam anos a fio. Curiosamente, só lhes dá esse "click" quando são apanhados no controlo ou, em alternativa, denunciados por alguém. E depois lá vem aquela coisa de que todos alinhavam, ninguém questionava a situação, etc, etc.
Mendes tem orgulho na carreira que fez. Pelos vistos considera que não há problema em ser batoteiro, em passar a vida a tomar compridos e a ser injectado com substâncias das quais só sabe o nome de algumas ou a ver jovens jogadores servirem de cobaias para as experiências dos graúdos. Orgulho devia ter tido era para, na altura devida, directa ou indirectamente, denunciar o que sabia.
Mas, perante a gravidade do que li em determinadas passagens - e independentemente do juízo que possamos fazer sobre Fernando Mendes -, espero é que as autoridades competentes não se limitem a assobiar para o lado. O Ministério Público e a Federação Portuguesa de Futebol não podem ficar quietos. E personagens como Laurentino Dias ou Luís Horta não devem ficar caladas. A menos que, de facto, não dê jeito nenhum mexer num "embrulho" que, para além de colocar em causa a verdade desportiva em determinados períodos, devia servir para mandar "de férias" muito boa gente...
