Fernando na Selecção é prego no caixão
Alguém tem dúvidas de que Fernando é um dos melhores médios-defensivos a actuar em Portugal? Mais: Fernando é o elemento que, no FC Porto, tem sido a pedra angular dos campeões nacionais nos últimos anos. Sem ele, o FC Porto perde uma das suas referências. Sem ele, o FC Porto perde os principais automatismos e o seu ponto de equilíbrio. Seria útil à Selecção? Não tenho a menor dúvida. O ponto não é esse. O ponto são os milhões que se gastam nos clubes e na Federação, com as camadas jovens. É verdade que a FPF capitulou há muito em relação aos naturalizados, mas isso não habilita a contemporização. É só pensar da maneira mais simples: Fernando na Selecção Nacional iria tapar um dos investimentos da formação, quer no respectivo clube (Sporting), quer na FPF: William Carvalho. Faz isto algum sentido?
Fernando está a cumprir a sexta temporada ao serviço do FC Porto. Várias vezes se falou da sua saída do Dragão, mas os responsáveis portistas perceberam a importância do jogador brasileiro na equipa e foram-no segurando. Agora com 26 anos e a reunir as condições legais para ser naturalizado, fala-se da sua adopção pela Selecção Nacional.
Bem sei que os tempos estão cada vez menos virados para a defesa de questões de fundo e dos valores. As federações e as selecções nacionais são marionetas nas mãos das confederações, que vêem o dinheiro à frente de tudo. O negócio vence em toda a escala. Quem alimenta o negócio, mesmo com menos escrúpulos, tem sempre a porta aberta. As selecções nacionais deixaram de ser o espaço para os melhores, como aliás também se tem visto na lógica das convocações da Selecção portuguesa. Há muitos factores a condicionar a existência das selecções nacionais. Os últimos naturalizados por Portugal (Pepe e Deco, por exemplo) são jogadores de primeiro plano, mas isso não chegou para serem abraçados pelo próprio país de origem. Assim acontece com Fernando. É evidente que o campo de recrutamento brasileiro é infinitamente maior do que o português, mas isso não explica tudo. A força de um empresário pode fazer a diferença. Os jogadores que são representados pelo mesmo empresário do seleccionador ficam em vantagem. Não deveria ser assim? Não. Mas é. São as leis do negócio. O dinheiro circula e chega para todos. E quando uns pressentem que ganham menos nesse negócio, surgem os problemas e os remoques...
O empresário de Fernando é António Araújo e, por aqui, talvez se percebam duas coisas: 1. A razão pela qual foi possível segurá-lo tanto tempo no Dragão. 2. Noutras circunstâncias (com outro empresário), Fernando já estaria a jogar noutro clube europeu e a sua entrada na Selecção Nacional aconteceria muito mais rapidamente.
A questão de fundo é outra, se as federações tivessem alguma autonomia para tomar decisões de natureza mais estruturante ou se se preocupassem minimamente com o objecto dos seus próprios estatutos: não basta afirmar-se que é preciso apostar mais na formação. É preciso resistir aos impulsos conjunturais.
De resto, se Miguel Veloso precisa de maior e melhor concorrência (porque estagnou naquele desempenho de espaço curto...), a questão não se deveria colocar em redor da naturalização de Fernando (a sua confessada frustração de não ser chamado pelo Brasil diz tudo...), mas da chamada de William Carvalho à Selecção Nacional, que poderia ter sido operada naquela deslocação da equipa das quinas aos Estados Unidos para jogar com a “canarinha”...
Em síntese: num momento em que se percebe que os clubes portugueses têm de voltar a apostar mais no produto da sua formação, até por razões de lógica financeira (a banca não pode continuar a financiar os disparates e a irresponsabilidade dos clubes...), a chamada de Fernando à Selecção Nacional seria mais um prego no caixão. Sem nenhuma necessidade, embora neste caso ainda não estejam reunidas as condições para uma campanha em força a favor desse desígnio...
NOTA – Aí está o que era inevitável: a contestação organizada ao presidente da Liga, Mário Figueiredo, encabeçada pelo regime, a provar que a Olivedesportos de Joaquim Oliveira jogou sempre (acima de tudo) na “equipa” do FC Porto.
NOTA 1 – Emanuel Medeiros de saída das Ligas Europeias: conhecedor, agregador, diplomata. Com perfil para desempenhar um alto cargo no futebol em Portugal.
NOTA 2 – A profissionalização da arbitragem (mais 5 horas de treino por semana) não vai erradicar o erro no futebol (Vítor Pereira “dixit”). Pois não. Vai ficar praticamente tudo na mesma. Árbitros satisfeitos e árbitros insatisfeitos. Tudo em nome do “sistema” que não muda.
JARDIM DAS ESTRELAS
Ruben Amorim “recuperado”?
Quem ouviu, ontem, Jorge Jesus falar na conferência de imprensa no final do Académica-Benfica percebeu, certamente, a intenção do treinador dos encarnados em aplaudir os seus jogadores, nomeadamente Markovic (pelo golo) e Ruben Amorim. O médio português entrou na segunda parte e Jesus evidenciou-lhe os méritos e a inteligência táctica. Fez bem. Longe vão os tempos das quezílias mútuas. Amorim não é um jogador popular (como começa a ser Cavaleiro), mas trabalha, é esforçado e, num regime de confiança, pode ser mais do que um elemento útil. Não tem a rotação de Enzo Pérez e a amplitude de Matic, mas – numa época longa – terá uma palavra a dizer, como ficou claro em Coimbra. Principalmente quando é preciso “fechar e controlar”...
O CACTO
Ridículo
Não há nada – nem o ego às vezes desmesurado de Cristiano Ronaldo – que possa justificar a forma desmiolada e patética como Joseph Blatter se referiu ao jogador português. Esta semana serviu para se perceber muita coisa, sobretudo algo que nos deve fazer reflectir na medida das nossas culpas: a desconsideração pelos portugueses. Mas também a colagem, em certos casos tão aviltante como a postura “intelectualmente pimba”, da “intelligentzia nacional” a Cristiano Ronaldo.
Pediu-se a demissão de Blatter, mas vendo bem... quem teria força para o demitir?!
