Fernando Pessa, 99 anos

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FERNANDO Luiz de Oliveira PESSA nasceu a 15 de Abril de 1902 em Aveiro. Filho de um médico da cidade, frequentou o liceu de Coimbra e interrompeu os estudos para trabalhar no BNU. Como o banco faliu pouco tempo depois, mudou-se para uma empresa seguradora inglesa que o levou para o Rio de Janeiro.

Viveu oito anos em Copacabana. Regressou com 32 anos e candidatou-se a locutor. Ficou na então Emissora Nacional até 1938, quando foi convidado para trabalhar na BBC de Londres.

Atravessou a II Grande Guerra no principal centro de informação mundial. Chegou a ouvir o rebentar das bombas. Voltou para Lisboa em 1947, mas o regime salazarista fechou-lhe as portas às notícias. Foi Artur Agostinho que lhe deu a oportunidade de regressar para a frente dos microfones no Rádio Clube Português.

Mas como era um trabalho ocasional, ainda esteve ligado ao Plano Marshall, como sonorizador de documentação cinematográfica. Entrou na RTP em 1956. Foi ele que apresentou o lançamento do canal numa cerimónia que se realizou na antiga Feira Popular. E ainda hoje é a cara – e a voz – mais conhecida da televisão pública. Casou e não teve filhos. Também não tem clube. E, no desporto, só gosta de cavalos. Na televisão, detesta o “Big Brother”.

– Esteve mais na pele de entrevistado ou de entrevistador?

– Enquanto repórter falei com gente de todas as áreas. Mas a verdade é que nos últimos anos tenho sido entrevistado um número exagerado de vezes. Tem sido horrível. Custa-me estar do outro lado. Divirto-me e compreendo, mas no fundo custa-me. Do que gosto é de perguntar, não de me ouvir, até porque me ouço cada vez pior.

– Quem gostou mais de entrevistar?

– As pessoas simples e humildes são as mais interessantes. São as únicas capazes de dizer a verdade e serem genuínas. Os outros estão demasiado preocupados em transmitir uma imagem e acabam por se tornar artificiais.

– Quando o Sporting ganhou o campeonato, exclamou “e esta, hem?”

– Por acaso, não. Será que merecia? Parece-me conveniente esclarecer que gosto é de cavalos. Nunca fui um homem de estádios.

– É possível falar consigo sem olhar para trás, sem olhar para a história?

– Eu até prefiro. O que lá vai lá vai. Agora o que me interessa é antecipar o que vai acontecer, o que vai ser notícia. Não gosto de ser refém da minha idade.

– Mas é irresistível recordar. Conte-nos: os dirigentes desportivos sempre foram assim?

– Assim, como?

– Tão... volúveis...

– Esta é uma nova criação com piores hábitos. Leio pouco sobre futebol, mas o que ouço basta-me para formular um juízo: onde será que esta gente quer chegar?!

– E os jogadores sempre foram tão vaidosos?

– Como repórter conheci grandes estrelas do teatro e do cinema. Todos vaidosos e com razões para isso. No futebol era diferente: gente simples como o Eusébio, o melhor futebolista português de sempre. Alguém o viu jamais fazer um gesto de enfado? Nunca. Isso é que fibra.

– E o Fernando Pessa é vaidoso?

– Não tenho razões para isso. Só fiz o que pude.

– Conta-se que é muito meticuloso. Como lidou com os momentos de fracasso?

– Quando era novo, reagia com uma enorme urgência em melhorar. Com o passar dos anos, foi-se a urgência e manteve-se a vontade de melhorar.

– A RTP é a televisão que temos ou a que merecemos?

– É uma boa televisão. Ainda me lembro quando fiz a sessão de abertura na Feira Popular, há mais de 40 anos, nem sabíamos para onde íamos. Era tudo um mistério. Ultimamente tenho visto pouca televisão, mas percebi que o “Big Brother” e os “Acorrentados” passaram noutros canais. Ainda bem, há coisas que não vale a pena experimentar.

– Qual foi o político que reagiu pior às suas crónicas sobre Lisboa?

– Foram quase todos correctos. E até me enviavam informação para demonstrar que os problemas tinham sido resolvidos. O objectivo daquilo era esse: resolver pequenos problemas que eram enormes para algumas pessoas. Chamemos-lhe jornalismo de proximidade ou o que se quiser, para mim era a oportunidade de pôr os políticos janotas a responder ao povo. O problema era quando as obras exigiam algum dinheirinho.

– Acha que há idades para tudo?

– Espero que não.

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