Figo: passado, presente e futuro
Luís Figo resolveu colocar ponto final numa carreira notável. Bom, pelo menos parece que não vai voltar a jogar num campeonato "a sério". Agora, creio, só uma experiência nova (talvez nos Estados Unidos), a troco de mais um contrato chorudo, o fará equacionar a retirada total.
Feitas as contas, só lhe faltou um grande sucesso na selecção nacional sénior para poder dizer que tinha ganho tudo onde competiu. Também não atingiu o título português, é verdade, mas isso pelo simples facto que, ainda muito jovem, mudou-se para outra realidade, para o patamar de topo. Desportiva e economicamente falando.
O mais internacional de todos os futebolistas portugueses (127 actuações na selecção A) foi mesmo um jogador fabuloso, daqueles que, no auge, era impossível ver jogar mal. Quanto muito... rubricava exibições menos boas! Esta época, a sua participação nos sucessos do Inter de Mourinho já não foi muito significativa. Aos 36 anos e ladeado de grandes figuras, Figo foi apenas mais um a ajudar ao tetra dos milanenses. Não se esperava outra coisa.
Mas, se o passado e o presente de Figo são do conhecimento geral, poucos parecem capazes de prever o seu futuro. Irá ficar directamente ligado ao futebol? Esta é a questão que aguarda resposta, sabendo-se, no entanto, que não lhe agrada a hipótese de seguir a carreira de treinador. Tendo em conta a sua qualidade inata e o facto de ter jogado (ao lado e contra) com a maioria dos melhores futebolistas mundiais das últimas duas décadas, devidamente orientados por técnicos de qualidade superior, duvido que Figo não conseguisse ser um treinador acima da média. Está provado que praticantes de qualidade não dão, automaticamente, técnicos de nomeada, mas continuo a acreditar que as chances de tal acontecer são grandes.
Mas, no futebol, Figo pode ser útil em várias áreas. Imagino-o, por exemplo, a seguir as pisadas de Rui Costa e Vítor Baía e poder ser útil ao seu Sporting como director-desportivo, líder da SAD ou embaixador internacional. Ou mesmo como presidente! Depois do percurso como futebolista de eleição, o seu nome será suficiente para abrir muitas portas (exceptuando as do Camp Nou...), para desbloquear determinados obstáculos, inclusive os financeiros.
No campo do dirigismo, Figo pode até ser um nome a ter em conta para a liderança da Federação. A esse propósito, aliás, já várias figuras manifestaram publicamente o desejo de o ver no lugar de Gilberto Madaíl. Quanto antes ou após um "estágio" para ganhar rotina.
Enfim, de momento, vários cenários são possíveis. Porém, resta saber se o próprio estará mesmo disponível para o que quer que seja, até porque já disse pretender sediar-se em Espanha e não em Portugal. Lembro-me de ter lido algumas entrevistas em que não rejeitava a possibilidade de enveredar pelo dirigismo. Mas, nunca me apercebi de isso ser um desejo efectivo. Figo tem contra si, aliás, esse seu lado demasiado fechado, calculista, algo frio e distante. Ao longo dos anos, o profissional exemplar teve comportamentos enigmáticos e foi protagonista de situações algo desconcertantes que, ainda hoje, fazem muita gente "torcer o nariz". Quem não se lembra dos festejos exuberantes, sentando no banco, quando o Inter marcou um golo ao Sporting? Da azia aquando de substituição diante da Inglaterra, no Euro'2004, seguindo directamente para o balneário sem ficar a ver os companheiros num dos jogos mais importantes da história da Selecção? Do discurso em castelhano aquando da atribuição do prémio de melhor futebolista mundial em 2001? Ou da inesperada transferência do Barcelona para o Real Madrid, que lhe valeu, na altura, a alcunha de "pesetero" e, ainda hoje, o título oficioso da maior "traição" no futebol mundial?
Figo pode, se quiser, ser praticamente tudo no futebol português, mas se é verdade que possui um carisma forte e nunca teve medo de tomar decisões polémicas, também é fácil constatar que não é uma figura consensual. E se não o é em Alvalade (como Eusébio e Rui Costa são na Luz ou Vítor Baía e Jorge Costa no Dragão), muito menos o é no País. Para muitos, Figo foi e será "somente" um extraordinário futebolista.
