Figo, Zidane e Rui Costa
REAL MADRID - Quando os pensadores do Real Madrid sugeriram a contratação de Rui Costa em vez de Zidane, por ser mais barata e envolver menos riscos de adaptação ao esquema táctico vigente, perceberam logo que dificilmente convenceriam Florentino Perez dos seus argumentos. Para o presidente, se havia dinheiro, se a Juventus aceitava uma por uma todas as condições do negócio e o francês estava disponível para jogar no Real, para quê descer um degrau e ir buscar um jogador com imagem menos arrebatadora, incapaz de vender tantas camisolas e menos apetecível para o objectivo de conquistar potenciais mercados externos?
FIGO - Jorge Valdano, Vicente Del Bosque e algumas das mais emblemáticas figuras da cabina tinham consciência dos riscos da aposta. E os receios não tinham a ver com a possível incompatibilidade de Zidane com Figo e Raul, coisa tão importante como saber se o francês sabia falar espanhol ou gostava da cor do equipamento. A questão era (e está visto que é) outra: jogando em 4x4x2, o Real precisava de um "10" menos atacante e mais apto a ocupar o espaço defensivo - é quase certo que a Juventus da época passada, em 5x3x2, com Zidane a servir de vértice do triângulo atacante, teria um problema idêntico se contratasse Figo.
RUI COSTA - Naturalmente que Rui Costa estaria mais à vontade a desempenhar a tarefa. Na selecção nacional, por exemplo, sendo um "10" como Zidane, actua várias vezes como médio-centro, isto é, distribuindo mais atrás. E não se perde porque estudou o mapa do terreno e decorou todas as suas regras elementares. O talento e a generosidade do temperamento fazem o resto. De qualquer modo, no Milan irá dispor das condições ideais para actuar como gosta, atrás de Schevchenko e Inzaghi, com as costas cobertas por três médios que lhe permitem ir para a frente sem receio de desequilíbrios estruturais, numa estratégia de 4x3x1x2.
ZIDANE - Sendo certo que o melhor Zidane tem sido aquele que actua na selecção, não é disparatado recordar, por exemplo, um dos princípios tácticos com que a França derrotou Portugal na meia-final do Euro-2000: um trio de médios-centro (Vieira, Des- champs e Petit) nas costas do artista principal - se fosse por cá haveria logo quem viesse falar que eram trincos a mais, que jogar ao ataque é melhor que jogar à defesa e outros disparates que por aí se dizem. Convém recordar, já agora, que em 1998, a partir do jogo com a Itália nos quartos-de-final, Aimé Jacquet utilizou esse esquema (com Karembeu, Des- champs e Petit) até chegar ao título mundial conseguido com o triunfo sobre o Brasil por 3-0.
FUTRE - Na opção do Real Madrid em contratar Zidane em vez de Rui Costa parece claro que a componente financeira se sobrepôs ao parecer técnico - e ambos aniquilaram, entretanto, a paixão e os valores sentimentais. Quando Futre chamou os jornalistas para anunciar o fim da carreira, o telefone tocou cinco minutos antes de entrar na sala. Era Pinto da Costa a dizer-lhe para cancelar tudo e meter-se no carro, que seria apresentado nas Antas naquele dia; que o problema no joelho depois se veria e a camisa 10 estava à sua espera, sim porque ele, o enorme Paulo Futre, tinha de acabar no FC Porto e não num hotel em Lisboa. Futre pensou, chegou atrasado à conferência de Imprensa mas cumpriu o programa. Foi só há quatro anos e parece uma história do século passado...
