Figura da Semana: Agostinho Marques Moleiro

A cada vez mais morna "rentrée" política é todos os anos agitada pela polémica sobre os touros de morte em Barrancos.

Esta semana, o debate voltou a centrar-se na pequena vila alentejana. E uma vez mais os touros voltaram a cair mortos na arena improvisada. Os argumentos contra e a favor repetem-se.

De um lado, os defensores da tradição. Do outro, as associações dos direitos dos animais. Agostinho Moleiro, governador civil de Beja, opta pela neutralidade e pela promessa de que aplicará as coimas definidas na nova legislação. Mas confessa que não aprecia touradas, apesar de compreender que a lei equipare a morte de um touro a uma infracção de trânsito.

- O Governo assegura que o Governo Civil de Beja tem os meios necessários para fazer cumprir a lei em Barrancos. Já foi aplicada alguma coima?

- Fui informado pela Guarda Nacional Republicana que mataram dois touros no primeiro dia e outros dois no segundo. E manda a lei que seja da competência do Governo Civil aplicar as coimas equivalentes. Nestes casos que citei, já foram identificados os infractores e o processo já se encontra em fase de instrução e seguirá os trâmites normais, sem pressas nem demasiada lentidão.

- A lentidão do processo é um factor de encorajamento para que a lei seja violada?

- Tudo leva o seu tempo e neste caso não existem razões que o tornem urgente ou prioritário. O importante é que seja tudo feito com transparência. Vamos ver os autos, ouvir os arguidos e aplicar as coimas devidas. Penso que dentro de dois, três meses o processo ficará concluído.

- Considera a legislação adequada?

- Decidiu-se descriminalizar os touros de morte e encarar esta prática como se se tratasse de uma infracção cometida por um automobilista. Não me compete fazer um juízo de valor sobre a bondade ou justiça do novo enquadramento.

- Vai ser difícil aplicar coimas a cidadãos estrangeiros?

- Mais difícil será, mas não impossível. Tratando-se de pessoas residentes na União Europeia, mais cedo ou mais tarde acabamos por encontrá-las. Mas temos a noção de que será um obstáculo e que pode atrasar o processo.

- Pode tornar a lei ineficaz, já que a morte do touro é muitas vezes executada por toureiros espanhóis?

- Volto ao exemplo que dei há pouco: a situação é igual para os automobilistas.

- Concorda com os touros de morte? Acha que é um espectáculo ou um acto de violência gratuita?

- Quando era mais novo assisti a duas touradas e não gostei. É um espectáculo que não me atrai. Mas como governador civil, não me compete confundir os meus gostos ou tendências ideológicas com a aplicação da lei. Por outro lado, também defendo a tolerância e penso que neste, como noutros casos, teria sido uma boa oportunidade para as pessoas dialogarem. É pena que isso não tenha acontecido.

- Como analisa a intervenção do ministro Fernando Gomes no processo?

- Estou no distrito de Beja como representante do Governo e, por isso, não faço apreciações sobre este ou aquele ministro. Mas tenho Fernando Gomes em boa conta, como tenho os outros.

- Um última questão, esta do âmbito desportivo: acha mais complicado gerir a questão de Barrancos ou o Benfica?

- Como benfiquista, reajo com humor a essa pergunta. Penso que seja mais difícil ser presidente do meu clube, porque são seis milhões de adeptos, enquanto em Beja são 108 mil pessoas. E o ambiente na Luz às vezes é mais difícil que em Barrancos...

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