Gerir bem uma carreira
Vivemos numa época em que, infelizmente, os jogadores sentem cada vez menos a camisola que envergam, focando-se mais na sua carreira e na obtenção de um grande salário. É legítimo que um atleta seja ambicioso e sonhe ter melhores condições, mas isso não significa que tenha de desrespeitar a entidade para a qual trabalha e com quem tem contrato.
Todos os anos, os clubes defrontam-se com episódios deste género. As épocas terminam e os jogadores entendem que este é o momento certo para dar o salto para uma liga mais competitiva, não se preocupando com a gestão desportiva do emblema que representam, nem em perceber se o clube tem interesse estratégico ou financeiro em vendê-lo nesta altura.
O caso de Jan Oblak é um exemplo paradigmático. Depois de vários anos sem um guardião consensual para a sua baliza, o Benfica parecia ter encontrado um valor seguro para um ciclo de vários anos de águia ao peito na defesa das suas redes. Porém, o finca-pé do esloveno em sair, pelo segundo ano consecutivo, fragilizou as pretensões encarnadas e forçou a uma negociação com o Atlético Madrid.
Como se vê, a articulação de objetivos entre clubes e os seus jogadores nem sempre é fácil de conciliar. No FC Porto, o central Rolando era visto por Lopetegui como um elemento importante para o seu grupo, pela experiência e segurança que poderia trazer ao centro da defesa, mas nem isso o demoveu da vontade de jogar noutro clube, mesmo com a perspetiva real de ser titular ao serviço do Dragão.
No Sporting, as atenções viram-se para Eric Dier. Depois de, na época anterior, Bruma e Tiago Ilori terem forçado a saída apenas com pouco mais de uma dezena de jogos ao serviço da equipa principal, mais um produto talentoso da Academia de Alcochete poderá abandonar o leão de forma precoce. Eric Dier ainda não se afirmou no onze titular dos leões, mas as notícias sobre a sua saída intensificam-se. É lógico que o Sporting só preferirá avançar para uma venda com o jogador mais valorizado, mas se o inglês forçar… tudo pode acontecer.
Nem sempre bem aconselhados pelos seus representantes, os jogadores acabam por colocar os clubes numa situação entre a espada e a parede. Se não jogam, logo surgem a manifestar a sua insatisfação. Se jogam umas 15 partidas de início, começam logo a pensar em voos mais altos e a mostrar vontade de experimentar outros campeonatos. Decisões a quente, que nem sempre são refletidas da melhor forma.
A gestão de uma carreira de um futebolista não se pode balançar apenas pelo tamanho da conta bancária. Mas, nesta era, é a força motora de uma transferência. No entanto, a análise deve ser mais abrangente e deve incluir a oportunidade de jogar e crescer, a valorização do estatuto do atleta, assim como uma maior experiência competitiva dentro de campo. São muitos os jogadores que emigram com 19/20/21 anos e falham porque não estavam devidamente preparados para o desafio.
Não se pede a um jogador que tenha de aguentar 5/6 anos no mesmo clube e perca a oportunidade de um contrato de sonho. Aliás, são poucos os jogadores que agora fazem quase toda a carreira no mesmo clube (o benfiquista Luisão é quase uma relíquia), e o modelo de negócio dos clubes não cria condições para isso. Mas espera-se que um ativo possa crescer, que saiba gerir a carreira e rentabilizar o investimento financeiro e desportivo que nele foi feito. Sair a meio do processo é prejudicar o trabalho de ambas as partes, clube e jogador.
O CRAQUE
O crescimento de Slimani
Começou a época anterior como suplente de Montero, mas, com muita entrega e dedicação, o argelino Slimani encontrou espaço no onze e faturou golos importantes no Sporting. Neste Mundial, o avançado leonino deixou igualmente a sua marca, ao ser um dos protagonistas, com dois golos, da boa campanha realizada pela seleção da Argélia. Forte no jogo aéreo e na pressão sobre os defesas, Slimani tem instinto de matador e melhorou o seu jogo de pés. As boas exibições no Brasil podem valer um bom negócio ao Sporting.
A JOGADA
Justo campeão do Mundo
O título mundial da Alemanha foi inteiramente justo. Venceu a melhor equipa do torneio, tendo sido igualmente o conjunto que melhor se preparou para ter o rendimento físico necessário para dar resposta às adversidades do clima brasileiro. Focados num futebol de posse, muito povoado a meio-campo (alinhando até com um “falso” nove) e praticado por excelentes jogadores, os mecanismos germânicos aperfeiçoaram ainda mais o “tiki-taka” espanhol, conciliando músculo e técnica na dose certa para chegar ao golo com maior eficácia. Foi a vitória da força do coletivo.
A DÚVIDA
Os prémios da FIFA
Não está em causa a qualidade do jogador. Raros são os que têm ou tiveram o seu talento, e Lionel Messi já fez mais do que o suficiente para ter lugar na história do futebol. Contudo, não se deixa de estranhar a atribuição da Bola de Ouro do Mundial ao jogador argentino, quando esteve à vista de toda a gente que outros jogadores tiveram melhores desempenhos individuais. E começa a ser moda a FIFA não dar o prémio a um jogador que se tenha sagrado campeão mundial. Messi não precisava destas polémicas. Não seriam Robben, Müller ou até James Rodríguez vencedores mais consensuais?
