Gestores de talento

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1 ­- O TRINCO nasceu do conceito de eficácia atribuído a quem anda hora e meia a correr atrás da bola e depois não sabe o que lhe fazer. É um marginal que chega a configurar casos de polícia mas passa por “andar ali a limpar a zona” e até já conhece a glória de sair em ombros do relvado. O trinco é uma cobardia dos treinadores, uma ofensa ao prestígio do velho médio-centro que tem a idade do grande futebol e nomes próprios que percorreram o século como intérpretes inesquecíveis - como Obdúlio Varela, Masopust, Mário Coluna, Gerson e Mathaeus. Por cá, estado de alerta máximo: Paulo Sousa anunciou a intenção de parar ao cabo de quatro anos de sucessivas lesões. O mais completo médio-centro português assumiu, aos 30 anos, que precisa de tempo. E como já não tem muito deixou-nos com o coração nas mãos.

2 - A ARTE de Paulo Sousa reside sobretudo na gestão do talento dos outros - evita que se disperse e dá-lhe sentido. Está para Figo, Rui Costa e João Pinto na selecção, como Guardiola esteve para Michael Laudrup, Romário e Stoitchkov no Dream Team de Cruyff no Barcelona; foi para Roberto Baggio e Del Piero na Juventus o que Rijkaard foi para Gullit e Van Basten no Milan de Sacchi e na Holanda. Não é o melhor mas é quem traça a rota, equilibra o barco e o conduz a bom porto. Regula emoções, marca ritmos e torna-se líder - por acaso, ou talvez não, Mathaeus (1990), Dunga (1994) e Deschamps (1998) comandaram os últimos três campeões do Mundo, não custando reconhecer que Littbarsky, Haessler, Romário, Bebeto, Zidane e Henry têm muito mais talento.

3 - SE O CAMPO é o palco dos artistas, a equipa é a casa do médio-centro; se a força dos “violinos” resulta de génio, instinto e improvisação, o médio vive de convicções fortes, estudo e poder de observação; se as obras de arte de uns são criadas no momento, as preciosidades dos outros são pensadas de véspera e obedecem a um ritual de aprendizagem cujo segredo é a inteligência e a rapidez de raciocínio - o seu futebol nasce na excelência do posicionamento, é feito de um/dois toques na bola, da intercepção de linhas de passe, de um estatuto indiscutível e da voz firme que todos respeitam. Os médios-centro como Paulo Sousa, Guardiola e Redondo são administradores das suas equipas e acabam normalmente por governar o jogo.

4 - EM PAULO SOUSA existe um projecto suportado numa convicção inabalável: a concepção formal do futebol como jogo colectivo. Por questões estéticas e morais nem todas as casas lhe servem. Custa-lhe seguir guião que não compreenda. Não pode ser apenas mais um. Quando Gigi Simoni lhe exigiu marcação e cobertura, correr com a bola para ganhar terreno ou chutar para a frente à procura de Ronaldo, estalou um conflito exemplar. O treinador precisava afinal de um varredor e não de um geómetra, queria um empregado de limpeza e não um pensador. Como já lhe chegam as debilidades do físico, Paulo Sousa mantém fidelidade aos princípios. Faz ele muito bem.

LÁ POR FORA

Van der Saar deu uma grande demonstração de classe em Roma, onde a Juventus empatou a zero, depois de ter vivido alguns problemas com os adeptos do seu clube, que o responsabilizaram, entre outras coisas, pela eliminação europeia. Durante anos a luta pelo título de melhor guarda-redes do Mundo desenrolou-se num palco em que Michel Preud’homme, Peter Schmeichel e Vítor Baía eram os protagonistas. Apesar de Kahn, Toldo, Buffon e Barthez, Van der Saar já é o guarda-redes mais completo do futebol actual, que joga quase tão bem com as mãos como com os pés e para quem a elevada estatura não constitui problema para a elasticidade e coordenação de movimentos.

FIGURA - PENA

CATORZE GOLOS DEPOIS - No final da cerimónia de apresentação do novo reforço, Pinto da Costa aconselhou Pena a regressar depressa ao balneário para pôr a cabina em ordem. Catorze golos depois, equivalentes a quatro meses, Pena deu notícias pouco animadoras sobre o trabalho que o presidente lhe “encomendou” nessa altura.

PARECIDO COM TYSON - Na ironia do líder portista estava uma resposta bem humorada às alusões pouco abonatórias sobre o jogador vindas do Brasil, que o caracterizavam como tendo um carácter difícil e uma personalidade conflituosa. Mais: que tinha semelhanças com Mike Tyson e que não eram só físicas.

RESOLVER E CRIAR - Pena resolveu o delicado problema da substituição de Mário Jardel e decidiu agora criar ele próprio um caso cuja origem, confesso, não consigo entender muito bem. Admitindo que a sua reacção foi espontânea, então alguém terá de o informar que saber viver em equipa é fundamental e que o FC Porto não é um clube qualquer em Portugal e no Mundo.

GOLEADOR SOLIDÁRIO - Se o goleador é um egoísta por natureza, o brasileiro acrescenta aos golos um notável sentido de solidariedade. Gosta de ajudar, não circunscreve a acção à grande área, recupera bolas e não perde nem posição nem frieza no momento de concluir. Tudo ao contrário do que fez ao transformar uma simples zaragata num caso público.

ALVO E MOMENTO - Pena sentiu que tinha crédito para falar mas escolheu mal o alvo e o momento: pouco inteligente ao tocar em Jorge Costa, pouco corajoso ao assumir a divergência no momento de ir para o Brasil. Ou foi uma inconsciência, ou tem segundas intenções. É isso que vamos ver hoje quando voltar às Antas.

PASSE CURTO

Luís Duque encontrou-se finalmente com José Mourinho e repetiu mais ou menos as palavras daquele senhor de idade que às vezes aparece na televisão: “Estou maravilhado.” Cá estaremos para ver, se permanecer no lugar e Mourinho continuar treinador livre, qual (e quando) será o fim desta história.

Dani não poupou a Direcção encarnada. O futuro dirá se o Benfica acautelou devidamente os seus interesses, porque este caso só pode ter um de três fundamentos: “1” - era sustentado em parecer técnico; “X” - reclamava a intervenção da PJ; “2” - aconteceu porque tinha de ser. Cá para mim é “2” no totobola. De caras.

“Não adianta ganhar uma fortuna e não receber”, assim se referiu Edmundo à situação que vivia no Santos. A Direcção do clube brasileiro não confirmou nem desmentiu e limitou-se a fazer o que começa a ser habitual nestes casos: dispensou o jogador. Ora como ele é “Animal” mas não burro... estava à espera de quê?

Jorge Valdano disse um dia que os dirigentes manejam melhor o dinheiro que a cultura, demagogos que sabem que querem já, só não sabem o quê. E relacionava isso com os poucos conhecimentos do mundo em que estão inseridos. Nisso como no resto, tudo depende de quem os rodeia.

Acosta anda amargurado. A vida não lhe corre bem, os golos não aparecem e tudo ficou mais à vista pelo facto de ter sido o único jogador titular da equipa que perdeu na Luz a sair do onze no jogo seguinte. Das duas uma: ou devolvem rapidamente a confiança ao “matador”, ou olham para a idade e dão cabo dele.

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