Guarda-redes de extremos
Nunca fui um particular adepto das qualidades futebolísticas de Casillas. Confesso até que, em determinadas situações, dei comigo a tentar perceber tanta idolatria em torno de um guarda-redes de qualidade – indiscutivelmente – mas que não me parecia ser o "melhor dos melhores", algo que em Espanha, aquando da sucessão de títulos da respetiva seleção, era das poucas coisas que parecia juntar toda a nação, independentemente de ouvirmos galegos, andaluzes, bascos, catalães ou madrilenos. Aceito, inclusive, que o guardião foi peça determinante nesses feitos nacionais, da mesma forma que também deu uma "boa ajuda" em muito do que o Real arrebatou nos últimos tempos. Ainda assim, fiel ao que comecei por dizer neste texto, se me dessem todo o dinheiro do Mundo para poder construir uma equipa de futebol, em período algum elegeria Casillas como titular da minha constelação.
Mas, da mesma forma que nunca fui um "pro-Casillas", admito que jamais fui ou me tornei em "anti-Casillas". E observar a forma impensável como essa legião cresceu nos últimos anos – em Espanha e não só – faz-me enorme confusão. Eu, que nunca o considerei um 80, assisti indignado à forma como muitos admiradores do passado o passaram a ver como mero 8. De repente, cada derrota da selecão ou do Real passou a ser responsabilidade de Casillas. E isso, se aqui ou ali até foi verdade (qual é o guarda-redes, jogando tanto e ao mais alto nível, nunca falhou e foi culpado de um resultado menos feliz?), no cômputo geral não faz sentido.
O problema é que a memória da maioria dos adeptos (e dos dirigentes que, antes de o serem, foram adeptos) é muito curta. Pelo menos no que se refere aos aspetos positivos... Se é preciso uma prova disso basta atentar na maneira sem classe como o Real deixou alguém que o serviu 25 anos a anunciar o adeus, em lágrimas, sem ninguém do clube ao lado. E nem a tentativa de "limpar" o ato horas depois escondeu o óbvio.
Para terminar: Casillas será uma das figuras da Liga e no Porto a alegria é enorme. Compreende-se. Só não se percebe a forma como Fabiano passou a ser dos poucos responsáveis pelos insucessos da época passada. Nunca foi 80 e já é 8...
