Guiados por profeta Zakaria
1 - A capacidade para resistir ao infortúnio e isolar a pressão exercida pelo exterior não é, obrigatoriamente, sinónimo de grande qualidade futebolística.
Mas quem consegue agir com indiferença a assobios e aplausos; gritos que recriminam ou incentivam, momentos de azar e sorte, dará passos seguros na consolidação como homem. Passado o cabo das tormentas, porque a equipa se afundava e ele não era solução para evitar danos ainda maiores, Zakaria Labyad apresentou muitas respostas pendentes. A confiança insolente no seu talento extraordinário, inalterável mesmo num cenário de catástrofe, mostrou que, afinal, o Sporting tem um número 10 que pode ser a solução para um sector ao qual tem sobrado combate para tão escassa criatividade.
2 - Mesmo considerando que há funções interditas a menores, Labyad acaba de demonstrar que está apto a ser maestro aos 19 anos. É um jogador que adormece a bola, melhora as ações em que participa e nunca tem medo de tomar decisões; domina os segredos da velocidade e ainda sabe introduzir a pausa; tem facilidade em conectar com os companheiros no seu raio de intervenção e é explosivo na aproximação à baliza; sendo eficaz na progressão participada e curta, vê bem ao longe e é capaz de cravar punhais nas costas da defesa contrária com passes milimétricos. Revela então a arte de oferecer prendas constantes aos companheiros (a bola e a baliza), assumindo-se ele próprio como um perigo, com soluções contundentes à chegada (tiro fortíssimo com o pé direito), seja em movimentos por conta própria ou em jogo combinado.
3 - Labyad está numa fase em que o talento ainda é manuseado como trapézio sem rede. O marroquino é daqueles fenómenos atrevidos e invulneráveis aos temores da excessiva responsabilidade, que procuram no futebol motivos para serem felizes, livres e reconhecidos mas que precisam também de oferecer ao coletivo o bónus da solidariedade, do empenho e do compromisso. Nada de excecional: quando recebem a confiança de quem os lidera costumam ser de boas contas e pagam com futebol da mais elevada estirpe. Nenhum sportinguista do meio-campo para a frente tinha conseguido furar o bloqueio emocional que congelou a inspiração de todos quantos podiam acrescentar magia à expressão cinzenta de um futebol sem futuro. Um futebol que não honrava o passado de um clube habituado a ganhar e a depurar sentido estético de máxima exigência.
4 - O que Labyad fez em Olhão mas também (menos) com o Beira-Mar corresponde à melhor prestação individual do Sporting 2012/13 do guarda-redes para a frente. Rui Patrício continua a fazer milagres debaixo dos postes; mas no imenso horizonte à sua frente nenhum companheiro se expressou com tanta versatilidade, exuberância, influência e fantasia, logo numa função congregadora que, quando bem cumprida, multiplica o rendimento de toda a equipa. Com Labyad a 10, o Sporting encontrou, ao fim de seis meses, o substituto de Matías Fernández, precisamente na altura em que apresentou estrutura coletiva mais sólida e uma proposta futebolística ao nível da sua história. Com a segurança de uma organização consistente, o leão encontrou em Zakaria o profeta capaz de guiá-lo à terra prometida.
Belém e Mitchell merecem a Liga
É impressionante a segurança de processos, a identidade, a solidez e o espírito de grupo do líder da 2.ª Liga. Uma equipa que, por confiar tanto no seu potencial, nunca perde a cabeça e está sempre em condições de inverter tendências negativas; uma equipa fortíssima nos esquemas táticos mas também no modo como ocupa o espaço, defende, ataca, sai a jogar e depressa se reagrupa atrás quando perde a bola. Concluindo, uma equipa feita de conceitos (mérito do seu treinador) e cada vez mais de nomes próprios. Se o Belenenses merece a 1.ª Liga, Mitchell van der Gaag também.
Grande mágico chamado Pep
O desafio é aliciante: se há treinador para quem nem todas as vitórias servem esse é Pep. Dito isto, a ideia bávara não é pôr a equipa a ganhar (para isso serve um Heynckes qualquer), é que ela jogue com brilhantismo – é fazer do Bayern um Barcelona no exílio. O que Guardiola conquistou até agora não oferece dúvidas, é só fazer contas a números, títulos e emoções que provocou. O que vai fazer em Munique é de prognóstico muito arriscado. Mas se conseguir pôr uma equipa alemã a dançar ao ritmo do tiki-taka, Pep Guardiola não será só um grande treinador. Será um grande mágico.
Já não está sob avaliação
Artur cometeu deslizes comprometedores em dois jogos consecutivos – um valeu apenas um golo sem importância para a vitória benfiquista (no Estoril), o outro pode ter consequências maiores no momento de se fazerem as contas do campeonato (com o FC Porto). Para lá de provarem a falibilidade da condição humana, as falhas não têm outro significado para lá da surpresa que provocaram num jogador com folha de serviço imaculada. Artur já não se encontra sob avaliação: está no topo das qualidades táticas, técnicas e físicas e é a imagem do guarda-redes de uma grande equipa.
