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17 outubro 2011 - 09:00

Herança que perdura

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Quando se fala na qualidade do treinador português, reconhece-se a existência de uma marca distintiva. A capacidade de liderar e ensinar, a competência técnica, o elevado conhecimento do jogo, a frontalidade do discurso e o bom relacionamento com os atletas traçam, de uma forma geral, o perfil dos técnicos nacionais. É uma forma de estar no futebol que tem sido cada vez mais aprimorada e que surge, na minha opinião, de um legado deixado por um Mestre: José Maria Pedroto.

Se estivesse entre nós, Pedroto completaria esta semana 83 anos. Do ponto de vista técnico e pedagógico, era uma pessoa invulgar, um treinador que deixou a sua marca no futebol nacional com feitos notáveis. Foi vice-campeão à frente de equipas de dimensão média, como o Boavista e o V. Setúbal, dando a conhecer o primeiro “Boavistão” com a conquista de duas Taças de Portugal na década de 70 e levando os setubalenses a brilhar nas provas europeias.

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A maior proeza terá sido o quebrar do jejum de 19 anos que o FC Porto passou sem ser campeão, com a vitória na época 78/79, plantel do qual também fiz parte. Nas Antas, o Mestre ganhou dois campeonatos e três Taças de Portugal, lançando as bases da equipa que depois se sagrou campeã europeia.

Ainda hoje, algumas das suas ideias continuam a ser aplicadas em equipas vencedoras. Por exemplo, José Mourinho, um dos melhores treinadores do Mundo, parece inspirar-se na sua alma de guerreiro e identificação de inimigos externos, para motivar os jogadores em torno de um objetivo comum: a vitória.

Pedroto conquistava a estima dos jogadores. Era sempre o primeiro a sair em defesa dos atletas, falando por eles, denunciando as injustiças. Ao blindar o plantel, mostrava faceta de líder e os jogadores nutriam confiança, admiração e amizade por ele. Esta é, como se sabe, a “escola” de muitos treinadores que têm passado pelo FC Porto.

“O futebol possui a sua própria pedagogia”, dizia Pedroto, que tinha grande paciência para ensinar os seus jogadores. A metodologia de treino era uma das dimensões do jogo à qual dedicava mais tempo. E existirá algum treinador português que atualmente ignore esta vertente? Creio que não. Este processo desenvolve os atletas e pode transformar um jovem principiante num jogador de nível internacional.

Veja-se um treinador como Jorge Jesus que, sendo um forte defensor da aprendizagem no treino, recentemente afirmou que “os treinadores portugueses têm a metodologia de treino mais avançada do Mundo”. Seguindo estes princípios, ao longo da carreira, o técnico do Benfica já catapultou muitos jogadores para a Seleção. Sérgio Conceição, Jorge Andrade, Paulo Ferreira, Rolando, Amorim e Coentrão são exemplos disso.

O Mestre referia que, em Portugal, “infelizmente, as pessoas só estão habituadas a dizer o que é conveniente”. Pedroto negava-se a ser assim. Foi responsável por muitas mudanças no nosso futebol e revolucionou formas de pensar. A forte personalidade (Paulo Bento), o poder de insinuação (Villas-Boas), a paciência (Fernando Santos), a boa disposição (Manuel Cajuda), a competência (Domingos Paciência) e a autoridade (Jaime Pacheco) são qualidades partilhadas hoje por alguns dos principais treinadores nacionais.

O futebol nacional transporta muito do que José Maria Pedroto nos deixou. Que os seus ensinamentos perdurem por muito tempo. Se assim for, acredito que teremos muitos motivos para sorrir.

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