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CONVERSAS DE BANCADA

Histórias de extremos

Por muito que tentem fugir da linha e se envergonhem da missão que lhes compete, os extremos continuam a ser imprescindíveis. Seja por genialidade pura, como Rivaldo, ou por se encontrarem outra vez num ambiente favorável, como Edmilson. Seja porque são capazes de virar as costas aos espectadores e correr para a baliza, como Luís Filipe, ou porque, ao contrário dos seus colegas, não se envergonham de ser servis, de trazer a bola numa bandeja e um guardanapo estendido no outro braço, como faz Luís Miguel. O fim-de-semana passado foi um fim-de-semana de extremos. Se gosta de futebol, só pode responder: ainda bem.

Tudo começou no sábado, com Edmilson. Muitos tinham tentado lançá-lo na equipa, mas esqueceram-se sempre de um pormenor: daquilo a que Cruyff chamou “entorno”. Aos que pensavam que a um jogador em crise psicológica como Edmilson fazia falta um jogo em casa contra um adversário fácil, o número 10 de Alvalade respondia sempre da mesma forma: com exibições adequadas ao que o rodeava: displicentes e capazes de levar o comum adepto ao desespero e aos consequentes assobios. Em Vidal Pinheiro, num relvado que bem conhece, capaz de lhe avivar memórias do tempo bom, com poucos adeptos a seu lado, Edmilson respondeu bem. Ao contrário do que se pensava, não precisava de carinho mas sim de exigência.

A festa continuou logo a seguir em Madrid, onde Rivaldo pode ter percebido que Van Gaal até tinha razão em desviá-lo do meio. De Serra Ferrer, substituto do holandês à frente do Barcelona, diz-se que é forte com os fracos mas fraco com os fortes, pelo que não surpreendeu ninguém que cedesse no duelo com o brasileiro e lhe desse o lugar que ele queria na equipa. Isto é: longe da linha, um sinónimo de subalternidade que os génios aprenderam a odiar. No jogo com o Real Madrid, Rivaldo foi jogar para perto dos adeptos, à direita. Fez um jogo de sonho, com três golos, um dos quais mal anulado. Porque se parte da linha lateral do lado direito, o seu pé esquerdo leva-o quase sem dar por isso a encarar a baliza olhos nos olhos, vai-lhe abrindo portas a caminho do destino preferido, que é o golo.

Toni pode ter-se lembrado de Serra Ferrer quando, no fim do jogo de Braga, mandou Sabry para a direita do ataque do Benfica. Só que, apesar de também revelar um desprezo nada inteligente pela linha lateral, o egípcio não é Rivaldo. Golos, nem vê-los. Acima de tudo porque o jogo foi de outros dois extremos: do objectivo Luís Filipe, autor de dois golos, e do bombeiro Luís Miguel. Este repetiu uma rotina até à exaustão: recebia, passava Escalona, levantava a cabeça e colocava a bola à frente do companheiro que estivesse melhor colocado. Pode ser repetitivo ou pouco ambicioso, podem até convencê-lo de que no futebol actual é uma parvoíce andar ali, tão perto da linha como longe da baliza e dos grandes contratos, mas a verdade é que, no domingo, a sua acção valeu três pontos. O resto é conversa.

Videowall - Belenenses

A progressão é feita através da distribuição de Wilson ou Tuck, o primeiro com passes longos para o ataque, o segundo abrindo o jogo à direita e à esquerda, accionando as corridas com bola nos pés de Lito e Cléber, dois médios de jogo muito vertical mas nem sempre esclarecido. No Bessa, os laterais atacaram pouco, o que deixou Guga e Seba como únicos elos de ligação a Marcão, um ponta-de-lança de referência mas pouco capaz de entrar no jogo colectivo.

Gerson e Cabral entraram pouco no jogo ofensivo. O primeiro é quase um terceiro central, adaptando-se bem à marcação a um dos pontas-de-lança, se tal for necessário. O segundo pareceu refreado no Bessa e, com excepção dos lançamentos laterais, só tocou a bola à frente do meio-campo por quatro vezes.

Filgueira é o central que marca o avançado adversário, deixando a Wilson as sobras e a construção de jogo assim que se ganha a bola. Wilson recuperou mais bolas (25 contra 21), mas esse jogo defensivo foi menos importante no global da sua acção que para Filgueira (41 contra 65 por cento).

Lito e Cléber correm muito com a bola nos pés, ganhando terreno e levando o jogo para perto da área do adversário, mas isso nem sempre se reflecte positivamente. Das 10 “cavalgadas” de Cléber no Bessa, só uma deu resultado, ganhando uma falta.

O trio ofensivo jogou pouco ligado. Guga, encostado à direita, só deu duas bolas a Seba e outras tantas a Marcão. O espanhol deu também duas bolas a Guga, mas nunca encontrou Marcão, que por isso esteve sempre isolado da equipa.

À espera do futebol

Paços Ferreira-Boavista

O líder vai à Mata Real, onde o Paços não perde desde meio de Novembro e onde, em 2001, só sofreu um golo. Antes de visitar o relvado onde Benfica, Sporting e FC Porto ficaram em branco, o Boavista soma três saídas sem fazer golos e sem ganhar. Mas já entre Setembro e Novembro alinhou cinco empates consecutivos fora de casa. Na única vitória boavisteira neste campo, em 1992, Jaime Pacheco era capitão do Paços e Rui Bento, que fazia o seu segundo jogo de xadrez, foi expulso.

Belenenses-Benfica

O Belenenses atravessa a maior crise da época, pois nos últimos cinco jogos apenas marcou um golo, não ganhando uma só vez. No Restelo, então, perdeu as duas últimas partidas, contra Beira Mar e E. Amadora. O Benfica não anda melhor, pois, pela terceira vez esta época, esteve dois jogos consecutivos sem vencer. Até aqui, ganhou sempre à terceira: em casa com o Belenenses e fora com o Salgueiros. Agora, a vitória é fundamental. Até porque há já 25 anos que o Benfica não é campeão perdendo no Restelo.

Campomaiorense-E. Amadora

Jogo importante na fuga à despromoção, que o Campomaiorense ganhou sempre, nas quatro vezes que se realizou. A confirmar-se a tradição, os alentejanos interromperão uma série de cinco jogos sem ganhar e darão um pontapé na actual ineficácia ofensiva: só marcaram um golo nas últimas cinco partidas em casa. O Estrela, em contrapartida, tem marcado sempre na segunda volta, onde a deslocação ao Bessa (derrota por 1-0) foi a excepção.

Marítimo-U. Leiria

Manuel José foi o único treinador leiriense a escapar à derrota na Madeira, arrancando ali um empate a zero na época passada. Os Barreiros continuam a favorecer a equipa de Nelo Vingada, que lá conseguiu 23 dos seus actuais 27 pontos. Mas os últimos tempos têm sido aziagos: desde Dezembro só o Alverca e o Braga saíram do Funchal sem pontos na bagagem. Se não perder, a União, que fora só ganhou na Amadora, iguala a sua melhor série da época: quatro jogos sem derrota.

Farense-Beira Mar

Palatsi perdeu eficácia a marcar “penalties”, mas continua a mantê-la na defesa das suas redes: já lá vão 370 minutos de futebol e mais de um mês desde que sofreu um golo. Muito por isso, o Beira Mar vai com quatro vitórias seguidas antes de enfrentar um teste difícil em Faro, onde ainda não ganhou e onde só numa de onze visitas (em 1991) manteve a sua baliza inviolada. O Farense interrompeu nas Antas uma série de seis jogos sem perder e, em casa, já não é batido desde o início de Dezembro.

Alverca-Salgueiros

As três vitórias consecutivas, sobre Sporting, Braga e Gil Vicente, já igualaram a melhor série do Alverca na I Liga, obtida em Março e Abril de 1999. Contudo, a quarta partida, na Amadora, já foi fatal aos ribatejanos. Desta vez, o encontro com a história depende da recepção ao Salgueiros, equipa que ganhou as suas duas últimas saídas. Contudo, os salgueiristas nunca venceram em Alverca e os cinco golos sofridos no sábado podem reflectir-se na equipa.

Gil Vicente-Braga

Os homens de Barcelos acabam de sofrer o segundo desaire em casa desde que Luís Campos substituiu Álvaro Magalhães, mas o saldo continua a ser-lhes favorável, com três vitórias para opor às derrotas. Já se sabe que o Braga se sai melhor dos jogos com os grandes que deste tipo de confrontos, mas não deve esquecer-se que, em oito visitas ao Adelino Ribeiro Novo, só perdeu uma vez: em Fevereiro de 1995, numa tarde inesquecível de um brasileiro chamado Roberto Carlos, autor de um “hat-trick”.

Sporting-Aves

Manuel Fernandes foi o autor do golo com que o Sporting bateu o Aves no único confronto entre as duas equipas em Alvalade, já há 15 anos. Desta vez não poderá marcar, mas tem a expectativa de imitar Inácio, somando três vitórias consecutivas à frente do onze campeão. O adversário não é dos mais complicados, pois já soma 14 jogos seguidos sem ganhar (cinco empates e nove derrotas) e até fala sem pruridos da despromoção. Será o 250º jogo de Pedro Barbosa na I Liga.

V. Guimarães-FC Porto

Pode ser uma noite histórica para Secretário que, se jogar, soma o seu 300º desafio na Liga. Para o Porto, que não pontua fora das Antas há 110 dias (cinco derrotas), os pontos serão fundamentais. Mas também o Vitória, onde Inácio se estreou pondo termo a uma série de sete jogos sem conhecer o sucesso, precisa de pontuar. O treinador campeão já recebeu o FC Porto este ano e perdeu (0-1). Mas atenção que nas últimas vezes que saíram derrotados de Guimarães (85/86 e 98/99), os dragões ganharam o campeonato.
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