Hugo Viana? Claro!

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HISTÓRIA – Da final do Mundial de 1994, em Los Angeles, o tempo filtrou as imagens convenientes à sustentação de um certo conceito histórico: Romário liderando a festa; Dunga com a taça na mão; Baggio destruído depois de enviar um "penalty" para as nuvens; Baresi em pranto na hora de desperdiçar a última oportunidade de vencer a grande batalha. Mas quem não se lembra de um miúdo com mais dentes que rosto, com a expressão mais feliz entre os brasileiros? Era o menino Ronaldo, estava no Mundial aos 17 anos e chorava muito. Era de felicidade pela vitória mas também podia ser de tristeza por lhe ter sido vedado o direito a pisar o grande palco.

TEMPO – Hugo Viana juntou--se aos ídolos da infância, esses heróis que o tempo transformará em companheiros de estrada. Chegou ao patamar mais alto do edifício em momento tranquilo para a selecção, numa fase ampla de confiança, para fazer um jogo particular. Terá o Estádio de Alvalade (o seu estádio) como palco, sem outra pressão que não seja a de um público (o seu público) que pretende assistir ao momento da sua entrada em campo. A data de 14 de Novembro tem, assim, pontos em comum com a de 21 de Setembro de 1983. Há perto de 20 anos, ali mesmo, um jovem arrancava para a glória em noite da qual resta a nostalgia do mágico nome que sabemos de cor: Paulo Jorge dos Santos Futre.

ESPERANÇA – Hugo Viana está à beira da internacionalização porque demonstrou qualidade ao serviço do Sporting. Para quem o aprecia por observações recentes, é uma agradável surpresa e uma esperança infinita. Toca a bola como se não fizesse outra coisa desde que nasceu; domina com perfeição variedade inacreditável de técnicas de passe; alimenta com todos os requintes visão de jogo só ao alcance dos prodígios; é solidário na distribuição das tarefas e parece um rapaz bem formado, incapaz de se deslumbrar. Esta noite, quando António Oliveira o chamar, Hugo Viana será protagonista de história reduzida a um mero registo que o distingue da sua geração e lhe aumenta a responsabilidade. Hoje, precisará apenas de gerir as emoções; amanhã é imperioso que entenda o momento como sendo início e não o fim de algo grandioso.

MEMÓRIA E SONHO – Ao não dar um minuto de jogo a Ronaldo no EUA-94, razão pela qual, em termos absolutos, o "fenómeno" não foi campeão do Mundo, Carlos Alberto Parreira levou o pragmatismo às últimas consequências. Conduziu o Brasil ao título mas ou não foi sensível ao conceito de eternidade ou não previu até onde cresceria o menino que juntou ao grupo de homens que lhe deu a glória máxima. António Oliveira terá menos probabilidades de ser campeão do Mundo, mas reafirmou, através do instinto que o caracteriza, a preocupação de ser lembrado como um homem que viveu entre a memória e o sonho, essa matéria abstracta de que se faz a história. Atendendo aos dados da época, podia ter escolhido Ricardo Quaresma ou Hélder Postiga; podia até seguir a lógica e deixar tudo como estava. Optou por Hugo Viana. Digam o que disserem, e com a vossa licença, fez ele muito bem!

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