"Incompetência" varre a Selecção
Não estava escrito no guião do presidente da FPF, Fernando Gomes, mas foi a declaração mais reveladora da conferência de imprensa da última terça-feira, quando – na ausência de explicações plausíveis para a má campanha de Portugal no Campeonato do Mundo – deixou escapar, na sequência de uma (oportuna) questão do jornalista: – Fomos incompetentes!
Isso mesmo: in-com-pe-tên-cia! Com todas as letras. Sem subterfúgios nem fungagás. Remédio para a incompetência? A confissão de que a renovação atempada com o seleccionador nacional correspondeu a uma opção consciente e ponderada. Importa-se de repetir?
Mau, mau: ainda se poderia admitir que a renovação do contrato do seleccionador, antes do Mundial, havia sido um acto de precipitação. Afinal, dois meses depois, com tempo para dar a volta ao Mundo, Fernando Gomes vem falar de uma opção consciente e ponderada. Mau, mau... Paulo Bento fora o primeiro a assumir, dialecticamente, a responsabilidade. Ontem, voltou a fazê-lo. Vamos lá a ver se nos entendemos, silogisticamente: se Paulo Bento se acha responsável; se a FPF reafirma que foi o seleccionador nacional a reconhecer que lhe foram dadas “todas as condições” para um bom desempenho; então é imperativo concluir que... a FPF voltou a apostar na incompetência. Logo, a FPF ainda é mais incompetente do que a declarada e proclamada – por Fernando Gomes! – incompetência do seleccionador. Mais: se o seleccionador estava avisado do alto “índice lesional” de um conjunto importante de jogadores, parece claro que houve – como dizer? – alguma “obstinação convocatorial”. A FPF, contudo, estava refém do seu erro original. Original e grave: a renovação do contrato. Vai daí, após dois meses de silêncios, férias, bronzeamentos e poucos sinais, havia que arranjar bodes expiatórios, excelentíssimos. E quem pagou a factura, sem surpresas, foram os excelentíssimos médicos, Jones e Campos.
Por portas e travessas, nasceu assim a USP (Unidade de Saúde e Performance), na Federação, que também se poderia chamar USCR, porque o que está em causa, acima de tudo, é a Saúde (com “S” maiúsculo) do nosso mais-que-tudo, Cristiano Ronaldo. Sem ronha e com Noronha.
Para se mergulhar na segunda parte da questão – a anunciada renovação da Selecção – havia que esperar pela primeira convocatória de Paulo Bento no pós-Mundial. E ela não poderia ser mais esclarecedora: dos 23 jogadores que estiveram no Brasil, 15 mantêm-se e, entre os 8 que ficam de fora, não há um que seja, claramente, por opção. Nem Varela, que está sem jogar. Os outros ou estão sem clube e sem competir (Postiga e H. Almeida) ou estão lesionados (Beto, Bruno Alves, Rúben Amorim e Cristiano Ronaldo), e ainda há um caso de “despromoção” aos sub-21 (Rafa). Foram chamados agora 24 jogadores (mais um em relação ao Mundial), provavelmente para salvaguardar alguma dispensa nas próximas horas, e, entre os 9 que entraram, apenas Rúben Vezo, Pedro Tiba e Ricardo Horta são novidades absolutas. Quer dizer: se não fossem os condicionalismos forçados (jogadores sem clube e lesionados), a renovação da Selecção – neste arranque para a operação Europeu-2016 – teria uma expressão muito próxima dos 9%!
Esta é a renovação que a FPF diz que Paulo Bento está em condições de realizar? Avanço: chamada de Adrien é um “elefante” que o seleccionador teve a humildade de engolir. Renovação? Já chega de brincar com os portugueses!
Os critérios continuam os mesmos: a base, o grupo familiar, a visão estreita e monolítica. Não obstante o esforço da FPF em condicionar – por força das alterações estruturantes – os ímpetos dogmáticos do seleccionador.
Fernando Gomes, agarrado ao erro da renovação contratual, quis esvaziar Paulo Bento, porque só lhe criando mais competências será possível conduzi-lo a um processo mais participativo. Bento será sempre uma figura frágil, porque não tem nem o currículo de Mourinho nem o de Villas-Boas (mais novo ainda) e, inevitavelmente, chegará à conclusão de que foi um erro começar a construção da (sua) casa (leia-se carreira) pelo telhado. O afastamento de Leonel Pontes (chutado para o Marítimo) e a promoção de Sérgio Costa são um sinal da influência de Ricardo Peres sobre o seleccionador e as suas decisões. Toda a gente já percebeu isso dentro da Federação...
Fernando Gomes não poderia ser mais directo e esclarecedor: a incompetência varre a FPF. A Unidade de Saúde e o Gabinete Coordenador Técnico Nacional são as máscaras que se arranjaram para alimentar (e antecipar) o carnaval.
NOTA – Cristiano fora da convocatória e a FPF a antecipar-se ao Real. A ida de Noronha a Madrid foi eficaz. O calendário ajuda.
JARDIM DAS ESTRELAS - *****
Cristiano (e Judite)
Gosto do Cristiano. Gosto da Judite. Gosto de pessoas que vencem, profissionalmente, através das suas capacidades. Gosto de pessoas que lutam. Gosto da obstinação quando ela visa a melhoria e o aperfeiçoamento. Gosto de pessoas que se puxam para cima quando as tentam puxar para baixo. Gosto de pessoas que se fazem a si próprias. Gosto de gente que não se deixa enlear pelos facilitismos oferecidos pela corporação dos medíocres. Gosto de gente que é capaz de gostar.
Sobressaíram a segurança e a dimensão humana de Cristiano, habituado a ganhar. As perdas, as nossas perdas, são um processo individual e solitário, mesmo aquelas que são acompanhadas pelo público. A Judite é uma campeã. Já regressou às vitórias. Com a certeza de que, tal como o Cristiano hoje sabe, o futebol e a vida são um jogo de equipa.
O CACTO
De(r)bilidades
Amanhã há dérbi a horas decentes (19.00). Aplauso. Um dérbi é sempre um dérbi, mesmo quando as equipas apresentam de(r)bilidades várias. Mais um dérbi marcado por tensões institucionais. Quando o fair play financeiro denunciar as realidades, ver-se-á quanto foi o tempo desperdiçado em superficialidades. O futebol português precisa de amadurecer. Nas práticas e no discurso. Que os jogadores e os treinadores nos façam esquecer, amanhã, o triste espectáculo que se observa fora das quatro linhas.
