Iniesta é um jogador sem defeitos
Há futebolistas que assumem relevância brutal só pela inteligência lógica. Não surpreendem com invenções fora do contexto; não deslumbram com manifestações geniais avulsas em forma de milagres da imaginação; nem atingem as conceções dos cérebros prodigiosos com horizontes criativos ilimitados. Andrés Iniesta pertence à estirpe daqueles que assombram pela perfeição de gestos e movimentos, como executor primoroso do senso comum e fiel depositário de uma cartilha devidamente escrutinada e assimilada pela nação blaugrana - aquela que fundamenta o FC Barcelona, "exército desarmado da Catalunha" nas palavras do escritor Manuel Vásquez Montalbán. O perfume da ação não está na mentira mas na perfeição; não é enquadrado pela fantasia mas pela técnica superior e cristalina; não está na assinatura de obras-primas mas no toque sem o qual o quadro ficaria incompleto.
A grandeza do seu jogo e do seu exemplo tem o suporte de uma liderança construída sem subterfúgios, conhecedora do peso da camisola, do significado do emblema e da história por detrás do clube que representa. Iniesta é futebolista de manhã, à tarde e à noite; um refratário aos prazeres cor-de-rosa da vida, renitente a honrarias pessoais e esquivo a qualquer adulação de poder. Vale pelo talento e pelo compromisso com o barcelonismo. Num mundo de imagem e orientado pelo espetáculo a qualquer preço, tudo jogou contra o seu perfil discreto de cidadão comum, sensível, metido com as suas convicções e resistente ao egocentrismo de uma sociedade que valoriza o supérfluo em vez do profundo e beneficia a polémica de quem se faz notar antes e depois dos jogos. Poucos como Iniesta são grandes porque fazem girar uma equipa à sua volta, proeza tanto maior quanto estamos a falar de duas das mais brilhantes formações da história.
Já não vai a tempo de receber a coroação que merece, até porque, aos 31 anos, não tirará partido do final de CR7 (30 anos) e Messi (28). Mas pelo que já fez, pelos títulos, pelo que representa para o Barcelona, para Espanha e para a história do futebol, ficará eterno credor da mais mediática e reconhecida das coroações. Deve, por esse motivo, armazenar elogios e entendê-los como sendo medalhas de carreira, a principal das quais a convicção de que é o melhor jogador espanhol de sempre e um dos mais extraordinários chefes de orquestra de todos os tempos. Um dia, porque teve a coragem de homenagear Dani Jarque, capitão do Espanyol falecido em agosto de 2009, dedicando-lhe o golo que deu à Espanha o título mundial em 2010, abandonou o reduto rival debaixo de aplausos. Acabou agora de ultrapassar os limites do imaginável: encheu o clássico de futebol, marcou um golo maravilhoso e saiu do Bernabéu com os adeptos do Real Madrid rendidos ao seu talento.
Iniesta despoja o futebol de toda a grosseria e superficialidade; é um jogador sem defeitos, indiferente ao engano e à estatística feito de golos e honrarias individuais. Mas transporta tanta inteligência, classe e cordialidade que até os adversários se orgulham por repartir o relvado com ele. A força do Barça de Luis Enrique, herdeiro do tiki-taka de Guardiola, está alicerçada no génio de Messi, na fúria criativa de Neymar e nos golos de Suárez; porém, hoje como sempre, é Iniesta a referência moral de uma escola e o expoente máximo de uma estética; o símbolo maior de quem dignifica o espetáculo, intimida os rivais por presença e propaga o bom gosto pelos companheiros. Para Jorge Valdano, quando a bola circula à volta de uma ideia grande, no fim a ideia transforma-se em sentimento. Se o estilo de uma equipa corresponde à sensibilidade da gente que representa e funciona como base filosófica de uma cultura, Iniesta é o centro nevrálgico de um conceito e o porta-estandarte de uma opção plástica. Nos últimos 40 anos não houve outro jogador como ele. *
Três desaires não são acasos
Três dérbis, três derrotas, é um balanço preocupante para o campeão
Olhemos para os dois últimos jogos: na Luz, o Benfica perdeu porque teve o azar de sofrer um golo cedo que lhe desfez a tranquilidade; em Alvalade, perdeu porque teve a sorte de marcar ainda mais cedo e de nem assim se inspirar para ser feliz. Se juntarmos a Supertaça, disputada em agosto, quer isto dizer que o Benfica perde sempre com o Sporting. Não é por acaso. Não pode ser. É porque o Sporting é melhor.
Golos de Bueno não são surpresa
O segundo marcador espanhol de La Liga não pode ser um jogador vulgar
Bueno está em processo de aprendizagem e à espera de oportunidades no FC Porto - o antigo avançado do Rayo Vallecano chegou a ser visto como rosto da versatilização tática portista, dadas as características perfeitas para o 4x4x2. A opinião no futebol conta mas dilui-se nas opções do treinador. Os dados concretos já são mais difíceis de gerir: e se desata a marcar golos de cada vez que é chamado?
Uma equipa sem futuro
O Real Madrid 2015/16 caminha a passos largos para o Deus nos Acuda FC
O problema merengue não é a situação na tabela (apesar dos 6 pontos de atraso para o líder) nem a copiosa derrota com o Barcelona no Bernabéu (0-4). O drama que assalta Florentino quando encara Benítez e analisa o futebol apresentado é perceber que está perante uma equipa sem futuro, escandalosamente à mercê do compromisso dos jogadores com uma causa na qual acreditam cada vez menos.
