Intromissões de uns e outros
Quando Portugal defrontou o Gabão num relvado em péssimas condições que colocava em risco a integridade física dos jogadores nacionais, a maioria da crítica desportiva atacou o presidente do FC Porto. Não por este ter dito aquilo que toda a gente pensava, mas porque ao criticar o facto acima descrito, numa partida em que alguns atletas azuis e brancos jogaram os 90 minutos, usou-se o argumento de que Pinto da Costa se estaria a intrometer nas decisões do selecionador Paulo Bento. Então, o que podemos dizer das recentes declarações de Florentino Pérez?
O mesmo presidente do Real Madrid que se vangloriou há algumas semanas de ter vencido a Liga dos Campeões com três jogadores lesionados no onze titular (o trio atacante composto por Cristiano Ronaldo, Gareth Bale e Karim Benzema) vem agora dizer que Ronaldo “só tem de jogar quando estiver bem”. É caso para dizer que “em casa de ferreiro, espeto de pau”.
Esta intromissão acaba por ser algo absurda, uma vez que não acredito que os responsáveis da Seleção optem por utilizar o jogador se ele não estiver totalmente em condições para jogar. É óbvio que ele terá de estar bem. Além disso, o selecionador é soberano nas suas decisões e hoje em dia os clubes recebem compensações financeiras da FIFA pelo tempo que os jogadores passam ao serviço do seu país, para não falar no retorno que a presença do português no Mundial’2014 trará aos madrilenos em receitas de publicidade.
Por outro lado, a influência do Real Madrid na Seleção dá que pensar. A inclusão de um fisioterapeuta do clube espanhol na comitiva portuguesa (não existiam outros profissionais portugueses com valor para integrar os trabalhos da seleção?) acaba por ser um indício de que o Real Madrid queria, e quer, “controlar” o processo de recuperação de CR7, mantendo-se a par com atualizações diárias.
O caricato é que foi o próprio Real Madrid a contribuir para o estado das coisas. O jogador atravessa um processo de recuperação que, diga-se de passagem, ainda decorre porque o clube espanhol utilizou o jogador sem que este estivesse a 100%, adiando assim a sua melhoria. Se é certo que a integridade física dos jogadores deve ser uma prioridade, tal cenário deve ocorrer tanto na Seleção como no clube, tendo cada responsável a competência para julgar e decidir.
É evidente que são os clubes que pagam os salários aos jogadores, mas isso não lhes dá o direito de se intrometerem na gestão que é feita pelos responsáveis da Seleção. E se Paulo Bento e os dirigentes da FPF sabem rebater os “bitaites” dos clubes portugueses, também o devem fazer perante clubes estrangeiros, independentemente de se tratar do colosso Real Madrid ou de um emblema menor.
Estou em crer que Paulo Bento o irá fazer, para defender e blindar o grupo de pressões externas. O espaço da Seleção Nacional é sagrado. Todos farão o que for possível para que o capitão de Portugal possa estar em condições de alinhar frente à Alemanha. E motivação de Cristiano Ronaldo para que isso aconteça não falta. Se não estiver bem, que seja resguardado para o jogo seguinte, que será ainda mais decisivo para as aspirações lusas. Somos um país de brandos costumes, mas não temos obrigação de prestar vassalagem a ninguém.
O CRAQUE
Talento promissor
Um dos médios mais promissores do futebol português atua há dois anos em Vila do Conde. E só uma arreliadora lesão, que lhe roubou mais de metade da época, impediu a sua afirmação em definitivo. Com uma qualidade técnica e de passe acima da média, Filipe Augusto é daqueles talentos que não enganam. Um centro-campista com capacidade e disponibilidade para defender e atacar, que trata bem a bola na fase de construção ofensiva e não se esconde no momento de recuar no terreno. Com um pouco mais de experiência (ainda tem 20 anos), será jogador de equipa grande.
A JOGADA
Tirada infeliz
Totalmente deselegantes e de mau gosto. Não vou citar as recentes afirmações escatológicas de Bruno de Carvalho, mas há que referir que as mesmas não dignificam o clube que representa e em nada contribuem para que o futebol português possa dar um passo em frente. O trabalho meritório do presidente do Sporting, que já elogiei várias vezes, não merecia uma mancha deste género. Para um clube que diz ter ideias para o futebol nacional, este não pode ser um dos que divide em vez de unir. E assim vai a luta pelo poder na Liga de Clubes...
A DÚVIDA
Valongo inspirador
A equipa de hóquei em patins do Valongo surpreendeu o desporto nacional e mostrou que os clubes de menor orçamento também podem fazer coisas bonitas. Uma boa liderança, ao nível dos dirigentes e do comando técnico, assim como o aproveitamento de bons valores da formação, são alicerces que podem ajudar a desenvolver um projeto ganhador. Depois de o Boavista se ter sagrado campeão em 2001, o Sp. Braga foi quem mais se aproximou de fazer o brilharete no futebol. O Valongo é agora uma nova fonte de inspiração. Voltaremos a ter um outsider para dar luta aos grandes?
