Isto não vai acabar bem

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1. A premeditação é o mecanismo interior com que o homem transforma o erro legítimo em crime; é o ponto de partida do itinerário perverso que une intenções não confessadas à manipulação da boa-fé alheia; é a infâmia de mascarar um acto voluntário com o direito ao engano; é dar aparência benigna, suportada na falibilidade da condição humana, a actos concebidos e executados com requintes de malvadez. A premeditação do erro é o pecado mortal para qualquer juiz. Porque a História nos dá exemplos aos mais variados níveis da vida, a dúvida é a resposta de quem vê julgar; a arma de autodefesa de quem exprime o direito à suspeita, neste caso entendida como revolta que nasce antes do tempo. No futebol português toda a polémica à volta da arbitragem tem origem num pressuposto indigno, perigoso e nunca assumido e que já vem de trás: a desconfiança automática da seriedade das pessoas. E esse é o crime que serve de cenário a tudo o resto.

2. O árbitro tem várias formas de se envolver com o erro. Pode fazê-lo por acção, quando analisa incorrectamente determinada ocorrência e age em conformidade com o erro – os competentes acertam mais vezes – ou por omissão, quando abdica de intervir, normalmente em momentos que configuram situações delicadas – é o reino dos chamados habilidosos, muito bem representados na SuperLiga, com representantes no topo da hierarquia, que adiam ao máximo todas as decisões importantes. Seja como for, e partindo sempre do princípio da boa-fé – de uma vez por todas, não existe outro! –, esses são erros aceitáveis, mesmo os mais grosseiros, os tais que influenciam o desenrolar de um jogo e às vezes ditam o seu próprio desfecho. Mas mais preocupante ainda é o crescimento de uma terceira e perigosa via, a dos que vêem aquilo que, em absoluto, não acontece. Entramos assim no domínio da alucinação, mau prenúncio para a responsabilidade inerente à função de ver, analisar e decidir. Estes são casos clínicos, gente que tem de se tratar rapidamente.

3. Tal como o secretário de Estado gostava de ser ministro, o enfermeiro preferia ser médico e o soldado não se importava de ser oficial, também os assistentes sonham com o momento em que trocam a bandeirola pelo apito e pisam um grande palco como senhores do jogo. Projecção ainda mais legítima, quando o futebol, através das instâncias superiores, lhes conferiu, sem testar a fundo as suas aptidões, outra amplitude de intervenção – é hoje claro que a melhoria técnica foi escassa e a mudança se revelou fiasco total. Quando um árbitro assistente faz sinal público e notório ao líder da equipa, daqueles que todo o estádio vê, para comunicar que houve uma grande penalidade, está a exorbitar das suas funções aos olhos do bom senso, mesmo que cumpra os regulamentos em vigor. Ou tem a certeza absoluta do que viu – como no Varzim-Benfica – ou não deve intervir, sob pena de trair indecentemente o seu chefe – lições proporcionadas pelos recentes V. Guimarães-Boavista e Belenenses-Beira-Mar.

4. O presidente da Comissão de Arbitragem da Liga teve o desplante de dizer, há poucas semanas, que só à quinta repetição foi capaz de confirmar falta para “penalty” (não assinalado) na entrada de Gaspar (Gil Vicente) sobre Antchouet (Belenenses) – um dos erros mais escandalosos de que há memória no futebol português. O presidente da APAF, por outro lado, vai exigindo punições exemplares. Foi assim com Jaime Pacheco e Miguel, tal como já fizera no caso de João Pinto, após o Mundial, em defesa de Juan Sanchez – um presumível associado da APAF. A linguagem utilizada em cada polémica serve para confirmar o desfasamento entre o sector e o resto do futebol. Aliás, há muito que a orientação dos árbitros não tem como referência a defesa intransigente do jogo e até do próprio espectáculo, nem a preocupação se estende, ao contrário do que sucedia noutros tempos, a opiniões exteriores, incluindo as mais razoáveis e fundamentadas. No modelo actual contam os observadores, porque eles e só eles definem as carreiras de cada um. Não sei se têm a mesma opinião, mas isto, tal como está, não vai acabar bem.

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