Já não há heróis

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Três treinadores, três personalidades, três destinos: Mourinho, Camacho e Queiroz.

Do primeiro está quase tudo dito. Vaidoso e excessivo, arrogante e caprichoso, mas ao mesmo tempo actualizado, trabalhador e rigoroso, passou dois anos a fazer com que os inimigos, e os adversários do FC Porto, engolissem elefantes atrás de elefantes. Hoje, na Alemanha, pode conquistar o terceiro título da época, o sexto em oito possíveis ao serviço dos portistas, um êxito difícil de ultrapassar. Se José Mourinho fosse mais modesto, e exibisse um rosto em que se vislumbrasse algo de humano, seria certamente o meu herói.

Do técnico espanhol poderei dizer que foi uma honra para o futebol português tê-lo ao seu serviço. José Antonio Camacho deu-nos o prazer de, ao olharmos para o Benfica, vermos a imagem de um profissional de uma só cara, determinado e orgulhoso, arguto e severo, uma verdadeira águia no seu ninho. Se Camacho fosse mais simpático, e exibisse um rosto em que se vislumbrasse algo de humano – recordo os olhos marejados de lágrimas após a morte de Fehér, a excepção à regra –, seria certamente o meu herói.

Do ex-treinador do Real Madrid direi que foi uma honra para o futebol espanhol tê-lo ao seu serviço. Pela elevação da maneira de estar na profissão, pela capacidade de trabalho, pelo empenho e pela competência que pôs ao serviço dos merengues, pelo respeito e pela cordialidade com que trata toda a gente, pela coragem de luva branca com que enfrentou o Clube dos Milionários – o público "fuck you!" que Beckham lhe dirigiu foi disso o melhor exemplo. Se Carlos Queiroz fosse mais "hijo de puta", e exibisse um rosto em que se vislumbrasse algo de desumano, seria certamente o meu herói.

1. V. Baía, o revoltado

Guarda-redes experimentado, caldeado por mil sofrimentos, parte para o mar de Gelsenkirchen apostado em mostrar ao País - e não já a Scolari - que é o melhor português na baliza.

O que espero dele - Logo, quero ficar perante o melhor de Baía: firmeza a agarrar a bola; rapidez a sair de entre os postes; capacidade de coordenação dos defesas à sua frente e, especialmente, a confiança que lhe permita fazer "aquela defesa" que pode decidir o jogo.

O que não quero ver - Hoje nada vai já surgir do Baía que se afundou ao serviço do Barcelona. Não teremos, seguramente, uma daquelas entradas de água que podem inundar os porões. E sem remédio...

2. J. Costa, o comandante

A péssima ideia que constituiu o seu prematuro afastamento da Selecção Nacional talvez tenha, afinal, as suas vantagens. Totalmente concentrado no FC Porto e nos seus interesses, o segundo dos Costas (a seguir ao patrão) pode hoje somar mais um sucesso à sua brilhantíssima carreira.

O que espero dele - Quero ver o grande capitão de sempre, o comandante que organiza a defesa, vai à frente em demonstração de raça e pressiona o árbitro junto à fronteira do permitido - ou mesmo com um pé no lado de lá...

O que não quero ver - Sem dúvida que não poderemos ter o Jorge Costa do Jamor, desconcentrado e expulso, que deixou a nau a gritar: homem ao mar!

3. Maniche, o atirador

Nos pés deste homem que ficou sem férias porque Scolari resolveu apostar nele pode estar, quem sabe, a sorte do jogo. Maniche é um jogador imprevisível - até no modo como "saltou" da equipa B do Benfica para a titularidade no FC Porto se vê que dele pode vir nada ou tudo.

O que espero dele - Se este atirador especial fizer aquilo que melhor o distingue na vasta tripulação de marinheiros de primeira, que é a precisão no tiro, então os franceses tremerão.

O que não quero ver - Temo precisamente uma costela do Maniche "à Benfica", pouco confiante, lento e alheado do combate. Aí, o seu temível remate não surgirá. E precisamos dele!

4. Deco & Costinha, o mestre e o marinheiro

Haverá, certamente, quem não os veja juntos, não só na próxima temporada (quase uma inevitabilidade), mas mesmo agora, tão diverso é o seu perfil futebolístico e tão diferentes são as suas prestações em campo. No entanto, o trabalho de Deco e Costinha é de tal forma complementar que a sua mais que provável separação trará a primeira complicação ao sucessor de Mourinho e deixará um problema por resolver ao futuro treinador do brasileiro. Enquanto Deco, o artista, o mestre, deambula pelo relvado, prepara o passe de morte ou executa o tiro inesperado com selo de golo, o operário, o marinheiro Costinha põe em sentido o contra-ataque inimigo, interceptando os lances a meio-campo ou constituindo a última barreira de coral antes da entrada na área.

O que espero deles - De Deco espera-se sempre o melhor e o melhor é aquele geniozinho que faz a diferença. Já Costinha será, sem qualquer dúvida, igual a si próprio - a formiga que trabalha, trabalha, e surge, implacável, no local certo à hora certa para a estocada final.

O que não quero ver - Nada, não vou ver nada que não queira. Na forma em que estão, com a motivação que têm exibido, Deco & Costinha formam uma dupla imbatível. Como se verá.

5. Derlei, o pirata

A Armada Invencível foi um dia arrasada porque tinha excesso de almirantes e poucos corsários. Derlei é senhor do "killer instinct" dos grandes piratas, do homem que espera o seu momento de atacar e que, quando o faz, pobre da presa. E não se limita a isso, por vezes procura a peleja e no um para um é igualmente letal.

O que espero dele - Um Derlei de espírito matador é esta noite absolutamente indispensável. Mesmo com fases de apagamento, é preciso que apareça na altura certa e, então, não falhe.

O que não quero ver - Se o brasileiro aparecer em Gelsenkirchen, num jogo que pode também mudar o seu futuro, apático e distante, podemos ter uma certeza: não é ele.

Perguntas leva-as o vento...

1. Quem é o director-executivo que, "exilado" no Porto, se queixa de ter de levar na Invicta "uma vida de padre"?

2. Qual foi a claque que na final da Taça de Portugal ganhou à do adversário por 600 a 100 em cadeiras partidas?

3. Quem é o docente universitário portista, que em recente reunião de professores de educação física iniciou a sua (longuíssima) alocução pondo-se a cantar "Campeões... campeões..."?

4. Quem foi o presidente de um grande clube que há anos recusou a compra do passe de Sokota por 300 mil contos e mandou contratar outro, que nunca passou de suplente, por 1 milhão e meio?

O vento traz as perguntas, o vento leva as respostas...

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