João Gil: «Benfica precisa de criatividade»
O grupo musical "Ala dos Namorados" estará, sábado, no Festival Sudoeste, na Zambujeira do Mar, para apresentar o quinto trabalho intitulado "Cristal". Depois dos "Trovante" e "Rio Grande", João Gil, aos 44 anos, é alma do projecto que atingiu o "boom" com o álbum "Solta-se o Beijo...", título retirado de uma canção com letra da sua actual namorada, a ultramediática Catarina Furtado. João Gil chegou a jogar à bola com Eusébio e aos 15 anos, juntamente com 20 miúdos da rua, foi fazer testes ao Sporting. Na altura, o treinador e o olheiro das camadas jovens, Osvaldo Silva, disse-lhe que tinha lugar no clube, mas o pai não o deixou ficar. "Ainda bem porque eu não gostava do clube. Eu gostava era do Benfica e do Belenenses." E, modesto, remata: "Se calhar, ganhou-se um músico razoável e não se perdeu nada enquanto jogador." Sobre o Benfica desta época que aí vem, não arrisca dar palpites: "Prognósticos, só mesmo no fim." Ainda no futebol, não há nada que o irrite mais que os jogadores discutirem as decisões do árbitro: "Vemos muitas transmissões de Espanha e Inglaterra e não vemos este comportamento como em Portugal. É de uma falta de nível..."
- Fale-nos do novo álbum "Cristal". Porquê este nome?
- Este trabalho resultou de uma experiência de dois anos, amadurecimento das ideias que vinham de trás, que naturalmente para nós representam um, dois, três degraus na escadaria da evolução. Está gravado há dois meses e, embora só saia agora, é um disco que reflecte, ou sintetiza, todas as ideias que vêm do primeiro trabalho. Há um amadurecimento, um crescimento no nosso tempo e daí também o nome "Cristal". Não é para nós a cristalização das ideias é, sim, o crescimento do tempo, no tempo natural e normal.
- Este é o quinto álbum...
- Os outros dois trabalhos anteriores representaram o abrir das portas do mercado para o grande público. Significaram a mudança que se deu em Portugal na "Ala dos Namorados" depois de ser visto como um projecto de culto. Mas não fizemos nem uma música nem uma nota a pensar em vender muitos trabalhos porque era preciso responder a esse mercado. Continuamos a manter a distância.
- É Verão e a maior parte dos músicos aproveita para promover os seus trabalhos. Como é que vai ser convosco?
- Não havia disco e já andávamos de um lado para o outro. Sábado [amanhã] vamos estar no Sudoeste. É um festival muito importante e, portanto, é uma presença para nós algo inédita. Há um processo de fora de Portugal que tem continuidade. Os discos têm sido editados na Bélgica, Holanda, Espanha, França, Canadá e Japão. Este também vai ser editado na Itália. Já é um motivo de orgulho e de satisfação muito grande. Mas não faz sentido conquistar só fora de Portugal, a grande tarefa é conquistar o próprio País.
- Saiu dos "Trovante" para a "Ala dos Namorados". Foi uma transferência à Figo?...
- (Risos) Na questão dos dinheiros está longe de acontecer, mas na questão do posicionamento em campo digamos que gosto de levar o jogo para a frente. Gosto de sentir que posso ser útil à minha equipa, estar disponível para ela. Joguei futebol e gostava de jogar com a cabeça levantada. Acho que Figo é um poço de força, mas há muitas maneiras de levar a equipa para a frente. Gosto de estar nessa posição. Mas também gosto muito da delicadeza, da sensibilidade e da subtileza de Rui Costa.
- E qual é o seu “partido” na polémica à volta da transferência de Figo do Barcelona para o Real Madrid?
- Acho que fez o que tinha a fazer e fez muito bem. Ele está sujeito às leis do mercado, ele tem que crescer e dar mais um passo na sua carreira e isso significa melhorar as suas condições de vida. Depois, a própria Direcção do Barcelona optou por não tê-lo. Senão, tinha subido a oferta, tinha tentado um ponto de encontro de equilíbrio respondendo à solicitação do mercado global.
- ... e a reacção dos adeptos?
- O mal está nas pessoas e na dinâmica que estabeleceram. Não se pode levar os jogadores a sério quando eles dizem que "agora vou dignificar..." Claro que eles têm de dignificar, pudera! Mas quando se joga, tem de se ganhar. As pessoas não podem sofrer tanto com o futebol. Não podem sofrer por ver o João Pinto vestido de verde. Eles estão num processo e numa dinâmica individual. Eles não vão pensar por milhões de pessoas.
- Se lhe oferecessem milhões trocava de grupo?
- Eu, juntamente com o Manuel Paulo e com o Nuno [Guerreiro] somos responsáveis pelo nosso clube. Portanto, a direcção não abandona o clube... Acumulamos função de jogadores e de directores.
- Mas...
- ... mas há músicos que mudam de formação para melhorar a sua condição económica. Conheço casos onde isso aconteceu. Sinceramente no meu caso não. Sou responsável pelas coisas que vou fazendo e, portanto, seria um paradoxo total.
- É adepto do Benfica e do Belenenses. Optimista?
- Bem, o Belenenses não está muito em causa na luta cimeira, por isso, agarrei-me àquele grupo de benfiquistas. É complicado dizer... Prognósticos só mesmo no fim. Reconheço que a equipa mais atractiva neste momento é o Sporting. É curioso constatar que o Sporting tem muitos portugueses que jogaram na selecção. Isso é gratificante para um clube. Aquilo que para mim e para muitos benfiquistas seria um orgulho era ver o Benfica constituído por muitos portugueses. Mas isso, hoje, não acontece nem com o Benfica nem com o FC Porto.. Quando os clubes conseguem ter uma mais-valia, uma força nacional mais forte, em termos quantitativos, beneficia com isso. O Sporting irá beneficiar com isso.
- E o Benfica sem João Pinto e sem Nuno Gomes?
- O malabarista Sabry pode fazer as delícias das vistas do pessoal do terceiro anel até cá abaixo. Mas o Benfica tem lá outras pedras fortes. Não me desagradou nada ver o Benfica jogar. Gosto daquele Carlitos intempestivo, irrequieto do lado direito. O Calado dá segurança e solidez. O Benfica tem uma defesa muito mais forte, vai sofrer menos golos, mas uma equipa só a defender não ganha. Se calhar, é capaz de sentir alguma falta de criatividade, por isso, é preciso jogadores como o Sabry e outros que possam vir. O Benfica necessita de criatividade, de soluções de ataque.
- Pró ou anti-Vale e Azevedo?
- Estou fora. Completamente fora. Fundamentalmente, alio-me ao Benfica, só e apenas pelo lado desportivo.
