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OPINIÃO

JOÃO MARCELINO: A propósito do FC Porto-Benfica

O jogo entre o FC Porto e o Benfica teria, quase forçosamente, de responder a algumas questões - e não defraudou as expectativas. A fácil vitória da equipa de Fernando Santos mostrou claramente qual é ainda, quase seis anos depois, a melhor equipa do futebol nacional; e a forma conformada como a de Jupp Heynckes aceitou a derrota pode ser invocada como prova de que tem andado no limite daquilo que vale actualmente com este quadro de jogadores.

A abordagem ao jogo forneceu logo pistas para a conclusão.

O FC Porto manteve a estrutura da equipa e o modelo de jogo, com apenas uma alteração táctico-psicológica: a entrada de Paulinho Santos (em vez de Peixe), não fosse João Vieira Pinto esquecer-se contra quem jogava...

O Benfica mudou em função do adversário e no futebol isso raramente tem outra leitura que não o reconhecimento da superioridade alheia. Heynckes foi às Antas para não perder e não conseguiu. Se o treinador do Benfica não estivesse mais interessado em defender a vantagem pontual que tinha (4 pontos), e/ou se achasse que a sua equipa possuía condições para lutar de igual para igual com o FC Porto, não teria tomado algumas decisões que a tornaram diferente. E este Benfica, como já se viu com Souness, “defende-se” melhor quando actua em 4x4x2.

Jogar com dois laterais como Andrade e Sérgio Nunes é espetar duas estacas no chão. E Heynckes, que saberá isso melhor que qualquer outro, ainda desviou Rojas para a marcação ao actual “playmaker” das Antas, Deco. Ou seja, ao contrário da maioria dos deslumbrados adeptos, o treinador da equipa “líder” do Campeonato sabe o que vale o grupo que comanda. E pode não ter tomado a melhor opção mas revelou o que pensa.

A diferença que existe entre as equipas do FC Porto e Benfica não deve ser assacada aos respectivos treinadores. Aliás, Fernando Santos tem feito uma gestão eficiente dos jogadores neste complicado início de temporada e Jupp Heynckes merece todos os elogios por ter conseguido fazer uma equipa com o limitado quadro de jogadores colocado às suas ordens por um clube a atravessar uma grave crise de tesouraria.

Para além do jogo, o que o embate das Antas colocou em relevo foi a condução político-desportiva dos dois clubes na última década, pelo menos. O FC Porto começa a ganhar quando foca a gestão na vertente desportiva e percebe sempre com muita antecedência (Deco e Capucho, por exemplo) o que escapa a Benfica e Sporting, por razões várias e obviamente diferentes e respeitáveis. A capacidade financeira do clube (ou da SAD, como se preferir), que depois lhe permite intervir no mercado com uma agilidade só possível de acompanhar pelo projecto do Sporting de José Roquette, advém dessa aposta na lógica e competência das decisões desportivas. E tudo isso somado permite a tranquilidade necessária à ultrapassagem dos momentos menos bons e ao aproveitamento de jogadores em crise de confiança (Peixe) ou deitados fora por falta de um projecto técnico coerente e independente dos treinadores.

Para se perceber melhor, repare-se na forma metódica e coerente como o FC Porto se tem reforçado nos últimos meses.

Quando Fernando Santos chegou às Antas, há pouco mais de um ano (e o ponto de partida para a análise poderia ser um outro qualquer), a equipa não tinha um guarda-redes acima de toda a suspeita, precisava de pensar na rendição de Aloísio e era fraca nas faixas laterais.

Atento ao evoluir do mercado e à situação de alguns ex-jogadores, o FC Porto conseguiu fazer regressar Vítor Baía e Secretário. Ainda no final da temporada passada precaveu-se com Deco; e Esquerdinha foi a primeira pedra na renovação do bloco de esquerda continuada com Rubens Júnior. Argel assumiu-se também já como o sucessor de Aloísio. Agora chega Clayton para a posição deixada vaga por Zahovic. Entretanto, Domingos continuou o ciclo dos regressos, Chainho faz de Doriva e Capucho conseguiu fazer minorar as saudades de Sérgio Conceição.

O futebol do FC Porto é um projecto dinâmico, aparentemente saudável do ponto de vista económico-financeiro, com dois jogadores para cada lugar do modelo conhecido e uma atenção permanente ao mercado. Não há um FC Porto anual, de mudança no grande defeso, pasto de empresários e gestores de carreiras.

Chegados a este ponto, o que dizer do Campeonato? Que está decidido? Que o FC Porto, depois do Penta, vai estender a supremacia a níveis nunca vistos no futebol português? Que o Benfica está derrotado e nenhuma outra equipa tem possibilidade de bater o pé ao campeão?

Nada seria mais errado.

Nem a supremacia futebolística do FC Porto, provada no confronto directo com Benfica e Sporting, é tal que o coloque acima de qualquer percalço, nem o desgaste pelo envolvimento nas muitas frentes de luta deixará de se fazer sentir na equipa.

Assim sendo, o Benfica, como qualquer outro desafiante do FC Porto, não tem por que desistir. A realidade do futebol, como qualquer outra, constrói-se com trabalho e convicção, todos os dias, aprendendo com os erros e nunca abdicando, não deixando triunfar o desânimo, perseguindo sempre objectivos superiores.

No caso concreto do Benfica, obviamente Heynckes tem problemas a resolver. Precisa que alguns dos seus jogadores cresçam depressa (Maniche, Bruno Bastos), que outros se tornem mais agressivos (Paulo Madeira e Nuno Gomes), que o conjunto seja por via disso mais forte, e, sobretudo, que a Direcção do clube crie as condições para remodelar o plantel, introduzindo algumas novidades indutoras de um segundo fôlego. Começar por resolver o problema de Bossio seria, aliás, um bom princípio.

De resto, não se esqueça: apesar de tudo, o Benfica vai na frente e só voltará a jogar com o FC Porto na segunda volta. Até lá...

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