João Soares Louro: Maçons são homens justos

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João Soares Louro nasceu em 12 de Fevereiro de 1933, em Faro. Presidiu ao Conselho de Administração da RTP (1978/80); foi administrador da Tóbis Portuguesa e da RTC (1981/84), presidente dos Conselhos de Administração da Cinevoz (1984/92) e da RDP (1992/93). Foi subsecretário de Estado para a Comunicação Social (1976), deputado pelo PS (1976/78) e director-geral de Operações da Expo’98; recebeu a Ordem de Mérito da República Francesa no Grau de Cavaleiro (1979), e a Medalha de Ouro da Cidade de Faro (1990); agraciado com o grau da Grã-Cruz da Ordem do Mérito, distinguido pelo Presidente da República em 9 de Julho de 1999.

– O que é a Maçonaria?

– É uma Ordem universal, filosófica e progressiva, baseada na Tradição Iniciática, obedecendo aos princípios da Fraternidade e da Tolerância e constituindo uma aliança de homens livres e de bons costumes, de todas as raças, nacionalidades e crenças.

– Como se explica a aura de mistério que sempre rodeou os maçónicos?

– Sempre que a Intolerância e a ausência da Liberdade assumiram o poder dos Estados, a Maçonaria teve de se ocultar, face às perseguições de que foi alvo e que se traduziram, infelizmente, na perda dos direitos de cidadania mais elementares e, até, em casos extremos, da própria vida. Fernando Pessoa, na sua resposta ao Deputado da Assembleia Nacional, José Cabral, no artigo publicado no “Diário de Lisboa” de 4 de Fevereiro de 1910, refere a dado trecho que "... A Ordem Maçónica é secreta... pela mesma razão por que eram secretos os Mistérios antigos, incluindo os dos primitivos cristãos, que se reuniam em segredo, para louvar a Deus, em o que hoje se chamariam Lojas ou Capítulos, e que para se distinguir dos profanos tinham fórmulas de reconhecimento... Por esse motivo os Romanos lhes chamavam ateus, inimigos da sociedade e inimigos do Império" – precisamente os mesmos termos com que os maçons foram brindados, ao longo da história, pelos que se reclamaram detentores das verdades absolutas e da infalibilidade. Há no entanto que saber separar a ideia de Ordem Maçónica do conceito de Obediência Maçónica. A Ordem, que é iniciática, é reservada exclusivamente aos seus membros e, portanto, julgada secreta por aqueles que não são maçons. Esta reserva justifica-se pelas razões aduzidas por Fernando Pessoa, que, note-se, não era maçon; a Obediência: as associações ou federações de lojas maçónicas que dão expressão institucional à Ordem Maçónica são discretas, e estão condicionadas ao contexto em que se inserem.

– O que significam os duzentos anos do Grande Oriente Lusitano?

– A evocação do decisivo contributo de muitos maçons para a Liberdade, Igualdade e Fraternidade conquistadas para o nosso Povo, do seu progresso nos últimos dois séculos e num combate constante contra o preconceito; na defesa dos valores da cidadania, da solidariedade e do laicismo, este assente em dois fundamentos que estão hoje consagrados na Constituição da nossa República: a separação da Igreja e do Estado e a liberdade absoluta de consciência moral.

– Como evoluiu a Maçonaria no nosso País?

– Com avanços e pausas, já que só pode afirmar os seus valores e ideias em plena LIBERDADE.

– Faz algum sentido a ideia, mais ou menos generalizada, de que a Maçonaria sempre teve poder e foi capaz de influenciar homens poderosos, nomeadamente políticos?

– É um olhar de parte da sociedade sobre a Maçonaria que, ao contrário do que se diz, não constitui nenhum ‘lobby’. Os maçons são sobretudo homens justos entre si e para a humanidade em geral.

– A comemoração do bicentenário do Grande Oriente Lusitano vai ser aproveitada para uma maior abertura da Maçonaria à sociedade civil?

– Obviamente, no que se refere aos seus valores e ideais, e da sua compatibilização com os novos fenómenos deste século XXI.

– Em que vão consistir as comemorações?

– Um conjunto de eventos alinhados com o que atrás já respondemos.

– O último ano foi bastante conturbado, sobretudo a partir dos atentados de 11 de Setembro: como se posicionou a Maçonaria? Que perspectivas perante um mundo em mudança, marcado pela globalização e por alguma fragilização dos princípios humanistas?

– Como sempre, combatendo o fanatismo, a injustiça, as desigualdades, tendo o Grande Oriente Lusitano, logo no dia 11 de Setembro, através do Seu Grão Mestre manifestado a sua solidariedade à Maçonaria dos EUA, que é a maior em termos mundiais. No decurso das nossas comemorações do bicentenário vamos debater abertamente as questões da chamada economia social face à Globalização, sem nunca perder de vista o reforço dos princípios humanísticos.

– No seu caso pessoal, como é que a Maçonaria mexe com a sua vida?

– Ajuda-me a ser melhor e a compreender com tolerância todos os demais, mesmo os que, meus próximos, não entendam algumas das minhas opções.

– Que importância tem o desporto sob a óptica dos maçónicos? Como é olhado?

– A Maçonaria entende o desporto como uma actividade que mobiliza milhões de pessoas em todo o mundo, nas suas diversas modalidades, considerando-se um bem social e uma forma de convívio fraterno, quando praticado com “fair play” e sempre que a harmonia se substitua a toda e qualquer forma de violência. Para referir um único nome, lembro que Avery Bundage foi maçon e Presidente do Comité Olímpico Internacional.

– Costuma acompanhar o futebol português? Por que clube sofre?

– Desde garoto. Sofro de forma tripla: pelo Casa Pia Atlético Clube, Sporting Clube Farense e Sporting Clube de Portugal.

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