Lesionados

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Que o Sporting é um clube lesionado já todos o sabemos. São lesões de liderança. São lesões de comunicação. São lesões de tesouraria. São lesões coladas nas paredes. São lesões técnico-tácticas. São lesões na relação que se estabelece entre o clube e a SAD. São lesões no acerto com o passado recente. São lesões de todo o género e são lesões que contaminam o plantel, física e clinicamente. A quebra do Sporting tem várias origens mas é preciso perceber por que razão a Academia se transformou num gigantesco estaleiro, com profusão de lesões musculares.

É preciso ter conhecimento, mas o “saber clínico” não basta. Os médicos e todos os seus auxiliares têm de lidar com as mais diversas situações. Têm de lidar com a pressão dos resultados e todo o tipo de influências que se movem em seu redor. Os treinadores querem os jogadores aptos e em campo a correr. Os presidentes e dirigentes querem ver sobre o relvado o produto dos seus investimentos.

Os departamentos médicos estão sempre a lutar contra o tempo e contra as pressões. É um trabalho difícil, às vezes ingrato e muito pouco autónomo.

O Sporting está a ser vítima da forma como não soube lidar com o assunto. Desde logo a instabilidade gerada pelo afastamento de Gomes Pereira, que não terá feito qualquer reparo às contratações de Luís Aguiar e Bojinov, ambos a apresentarem importantes sequelas de casos clínicos que haviam protagonizado. Entrou Frederico Varandas e outro tipo de situação começou a avolumar-se na Academia: lesões de índole muscular. Mas a pergunta impõe-se: essas lesões resultam da ineficácia do departamento médico ou são uma consequência da metodologia de treino utilizada por Domingos Paciência e a sua equipa técnica? A recente lesão de Schaars, contraída no aquecimento do jogo de Olhão, levanta essa e outras dúvidas. Mais: o ponta-de-lança Wolfswinkel, outro holandês (e os holandeses são genericamente “bons profissionais”) glosava, recente e publicamente, com o tema das massagens antes dos jogos. Seja como for, o tema das lesões está na ordem do dia no futebol do Sporting: o caso de Rodríguez é paradigmático – chegou a recuperar no clube para estar apto para a selecção do Peru. Como é possível? E há outros casos, como o de Jeffren (sempre no estaleiro), a colocar muitas interrogações sobre os fundamentos que estiveram na base das contratações.

Não há treinadores todo-poderosos. Domingos Paciência está a ser confrontado pela primeira vez na sua carreira com uma realidade para a qual não se exige apenas “saber futebolístico”. São necessárias outras competências. No Sporting, não basta saber-se de futebol. É preciso responder às complexidades históricas e estruturais. É minha convicção de que Domingos já percebeu, num quadro de distintas e fragmentárias lideranças, que não é possível. E por isso, na altura certa e sem ninguém ter detectado o sinal, deu a entender que está disponível para o mercado. O Sporting pode não ter desistido de Domingos, mas é bem possível que Domingos já tenha desistido do Sporting. Mais importante é que o Sporting não desista.

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